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afonsonunes

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19 Fev, 2009

Medidas ainda não

 

Com tantas e tão variadas medidas o país pode estar tranquilo que não vai ao ar, como o balãozinho colorido que sobe, sobe, mas não rebenta, pelo menos durante o tempo que estamos de nariz virado para ele, até o perder de vista na imensidão do firmamento. Depois, sabe-se lá o que lhe acontece. Mas, ao céu é que ele não chega.
O país também lá não chega, pela simples razão de que não é balão, e pela complicada razão de que não se dá bem com as alturas, preferindo correr o risco de rebentar cá em baixo, ainda que seja vítima da bota pesada de algum sujeito que ande a dormir em pé, e meta a pata em cima daquilo que julgue ser um inocente balão.
Por causa destas dúvidas e de outros receios, tiram-se medidas a torto e a direito, com fita métrica, com régua, aos palmos, aos passos, como se já ninguém fosse capaz de arriscar uma medida tirada a olho nu, como se faz a certos umbigos que nos passam pela frente.
Mas, ainda bem que toda a gente está agora sensibilizada para as medidas, que nunca serão demais, ainda que os instrumentos de medida nem sempre coincidam nos valores que nos fornecem, daí que fiquemos mal fornecidos. Também há quem pense que ficaremos pior que isso. Tal como há quem ficaria feliz com isso. Questões de gosto.
Uma boa medida é aquela que nos tiram sem a gente dar por isso, sem sentirmos que ela nos incomoda, mesmo que não nos faça rir com cócegas, nem nos ponha a chorar de raiva, pois não há ninguém que goste que lhe tirem mal as medidas, mesmo desconhecendo o motivo por que lhas tiram.
Parece que anda meio mundo preocupado em dar medidas e tirar medidas, tanto quem tem os meios de as dar, como quem não tem sequer mãozinhas para as tirar, embora julgue que lhe baste tirá-las com o pensamento. Ainda que ele seja mesmo fraquinho, mesmo curtinho, que não vá além de uns curtíssimos milímetros.
A cada medida que dizem que nos dão, logo surgem dezenas de medidas que dizem que faltam, e logo aparecem fitas de medidas que nem sequer têm traços nem algarismos que nos regalem ao menos a vista e consolem o coração, com a presença de uns centímetros animadores. Sim, porque medidas ao metro já são uma miragem nos tempos que correm. E nos cansam de tão curtas que são.
Mas, também há quem queira medidas ao quilómetro, quando não tem mais que duas mãos, que não podem fornecer medidas superiores a vinte centímetros de cada mão, ou seja, dois simples palmos, se as mãos forem normais.
Depois, há quem fale em medidas da crise, como se já lhas tivessem tirado com exactidão, esquecendo que ela não tem comprimento, nem largura, nem altura. Ela ri-se de todos aqueles que lhe atiram com medidas de palheta, com o ar mais sério do mundo. Mais sorumbáticos, são todos aqueles que falam na crise das medidas, talvez baseados no princípio de que medidas, medidas, é tudo aquilo que não se vê, não se sente, nem vem do lado de boa gente.
Cá por mim, à cautela, prefiro que ainda não me tirem as medidas, porque julgo que é um pouco cedo para vestir o último fato, e de madeira, aquele que serve para ir desta para melhor ou, quem sabe, para pior.