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afonsonunes

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21 Fev, 2009

Viva a palhaçada

Nem se podia dizer outra coisa nos dias que decorrem nesta quadra carnavalesca que, ao que parece, levanta bastante o moral das tropas deste exército lusitano, permanentemente em guerras de contradições. Ora se lamenta até ao desespero, para logo a seguir se entregar à loucura do forrobodó. Ora não tem dinheiro para nada, mas ele aparece de imediato quando toca à satisfação de uns bons bocadinhos.

Por entre palhaços e palhaçadas a nossa vida lá vai indo, como costumamos desculpar-nos quando não queremos dizer bem nem mal dos dissabores ou dos prazeres que sempre vão aparecendo ao longo dos dias que vão passando.
Tudo vai indo, tudo vai passando e nós também nos vamos passando de vez em quando, com as palhaçadas em que nos metem sem a nossa concordância, mas também com os palhaços que temos de ouvir e, pior ainda, que tantas vezes temos de ver. Mas adiante, que hoje não é dia de palhaçadas tristes, nem de palhaços de má memória.
Viva a folia, mesmo sem dinheiro, porque tristezas não pagam dívidas e os olhos tristes não dão boa cara a ninguém, ainda que se escondam por detrás de uma boa máscara. Se não puder dar uma saltada até ao Rio, do Brasil, claro, vá até ao rio mais próximo do local onde se encontra e molhe os pezinhos, que sempre ameniza as dores nos calos.
Se é dos felizardos que nunca teve calos, nem nos pés, nem nas mãos, não se encolha, porque carnaval é só uma vez no ano, e daqui a um ano, quem sabe se não terá já ganho uns calos na massacrada cabeça, de pensar em tantas reviravoltas que a vida dá. Vá, vá de imediato, antes que se arrependa, pode ser que no local para onde for, seja fácil levantar dinheiro logo à chegada. Não hesite, levante, vá para a farra, já.
Se ficar por cá, não se meta nesses corsos que só dão barulho e encontrões. Além disso, terá a tendência para querer almoçar nessas localidades e, das duas, uma. Ou seca no restaurante à espera e perde o corso, ou vai ao corso e perde o almoço, porque não encontra uma vagazita numa mesa.
Não caia na asneira de pensar que este ano vai haver pouca gente, por causa da tal coisa de que hoje não convém falar. Não se iluda, vai haver muito mais gente que no ano passado. Eu até apostava que sim. Até porque este ano o sol sorri para toda a gente, apesar de haver quem preferisse uma chuva miudinha por causa da poeira que anda no ar. E o raio da poeira não há meio de assentar. Pudera, com tanta gente a dançar.
Há sempre gostos para todos os paladares. A verdade é que não pode haver boa palhaçada sem poeira, porque é com ela que a gente se ri. Quando vem chuva, mesmo da grossa, a gente tem de ir rir-se para outro lado. E isso já é mais chato, precisamente, por causa dos chatos que também fugiram da chuva e vão para onde nós nos abrigamos.
Cá por mim, adoro os foliões que se recusam a ser palhaços e se recusam a entrar em palhaçadas. Tal como eles, também eu esqueço muitas vezes onde estou e solto duas boas gargalhadas que me tiram a poeira da garganta. Mesmo que não estejamos no carnaval.