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afonsonunes

afonsonunes

23 Fev, 2009

Feia e envelhecida

Há mulheres que nunca foram bonitas, mas isso não quer dizer que sejam más pessoas e que não tenham outros bons atributos que fariam bastante falta, a tantas estrelas do firmamento da beleza. Estou a lembrar-me da decência mental, por exemplo, para não falar no ódio que pode constituir o único brilho de olhos ‘espintalgados’ e encovados.

Ser bonita é uma delícia, mas querer parecê-lo à força, é uma teimosia igual àquela que demonstra, semanalmente, quem pretender meter-me pelos olhos dentro, o que lhe vai na alma inquinada e facciosa, como se uma perniciosa rabugice, tivesse o condão de me fazer abrir os olhos, ignorando uma certa imagem feia e envelhecida que me faz virar a cara para o lado, sem um simples sentimento de compaixão.
Não ignoro que estou hoje a transmitir a mesma mensagem, que tal imagem de uma mulher feia e envelhecida me revela, cada vez que a vejo e oiço, embora não tenha paciência para a aturar por muito tempo. Mas, também tenho a noção de que ela nem sequer sabe o que eu penso ou digo, por isso, estamos empatados, como no início do jogo. Jogo desigual, porque ela pode envenenar falando, enquanto eu, embora imune ao veneno, apenas posso ouvir.
Por norma, as mulheres, umas mais, outras menos bonitas, são simpáticas, tolerantes, de trato afável, quando têm, ou lhes apetece falar de outras pessoas. É sinal de que sabem que estão integradas numa sociedade plural e respeitadora de valores e deveres, que respeitam os semelhantes e os seus direitos, exactamente, na mesma medida em que exigem naturalmente ser respeitadas. Se, eventualmente, a uma mulher lhe competir informar, então também lhe compete saber minimamente do que fala e não insinuar ignominiosamente aquilo que desconhece.
Mas, contra todas as normalidades, surgem onde menos se esperam, as anormalidades, obviamente provocadas por mentes anormais, cegas pelo ódio, que confundem com um estúpido sentido crítico, misturando incompreensíveis sentimentos baixos, que não se devem manifestar de forma tão irracional, nem a um simples animal doméstico, quanto mais a pessoas, por mais que se discorde delas.
O facto de estar num poleiro, não dá a qualquer galinha, ainda que meio depenada, de voz roufenha e pele inchada, o direito de cacarejar, numa tentativa desesperada de armar em profeta da salvação que ela própria deve ter interiorizado, para fugir ao seu contributo para uma canja que, por causa da pele demasiado esticada, teria de sair sem tom e demasiado sensaborona.
O campo das ideias não se situa dentro de uma panela de pressão, por mais que se queira controlar o pivot, tal como não se controla o seu rodopio, originado por vómitos de vapor, que de tão desagradáveis, provocam um sibilar mais que irritante.
Sinceramente, nem faço a mínima ideia do que ficou dito para trás. Há dias assim, em que a memória se esvai segundo a segundo e, ainda por cima, não apetece mesmo nada, voltar ao princípio e ler, corrigindo, se fosse caso disso, tudo aquilo que possa não fazer sentido. Se outro não houver, que fique o meu sentimento de indignação.
Confesso que não me lembro absolutamente nada, de quem ocupava o meu pensamento, quando estas manifestações sensoriais obtiveram ordem de soltura. Mas deviam ser imagens que me transmitiam uma qualquer sensação feia e envelhecida.