Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

11 Jul, 2008

O meu ídolo

 

 Haverá alguém que não tenha um ídolo? Sinceramente, hoje em dia, não há certezas de nada, que o mesmo é dizer que não se faz a mínima ideia se as pessoas, para lá da verdura dos anos da juventude, ainda terão tempo para pensar em alguém que admiram. Ou se ainda vêem alguém capaz de as tirar da postura insensível, amorfa e imutável que as submete, dia e noite, ao longo de toda uma vida. Mas, por outro lado, talvez haja no fundo de muita gente, um idolozinho qualquer, nem que seja o marcador de serviço da sua equipa de futebol preferida. Para muitas pessoas, talvez haja um cãozinho ou uma cadelinha, um gatinho ou uma gatinha, que enche o pensamento e preenche aquele vazio que tanto custa a suportar, substituindo-o por redundantes manifestações de exaltação de qualidades, por sorrisos de admiração incontida, que só os ídolos conseguem obter dos seus admiradores.
Por mim, nunca consegui sequer admirar o meu professor de matemática que, ao longo da minha escolaridade, me brindou sempre com oito na pauta, três vezes ao ano. Mais tarde, ao longo de uma vida de trabalho, não consegui descortinar um ídolo que me fizesse esquecer, ao menos, que estava ali apenas para ganhar o dinheiro que me fazia falta para viver.
Em contrapartida, tive grandes alegrias, proporcionadas por gente simpática, que me fazia rir quando me via triste ou que, sem o saber ou não, fazia grandes palhaçadas em cenas, quantas vezes impróprias de gente crescida. Mas, quanto a ídolos, nada. Talvez seja um caso vulgar de insensibilidade nata.
A verdade é que hoje em dia tudo mudou. Finalmente, tenho um ídolo. Não foi fácil descobri-lo. Não se encontram ídolos por aí aos pontapés, porque abundam os vulgares inúteis e os bons incompetentes, que não podem ser ídolos.
O meu ídolo é um espanto de inteligência, de tal forma que conseguiu entrar para o governo. Conseguiu convencer-me que vivo num país admirável, de gente simples, trabalhadora, simpática, tolerante, educada e respeitadora, tal como ele. Aliás, o governo dá o exemplo em seriedade e respeito pelas ideias expressas por toda a gente, especialmente a da oposição. Há muitos elogios, todos sinceros, todos merecidos.
Tudo graças ao meu ídolo, que transformou o país, a justiça, a televisão, o trabalho, os impostos, a saúde, os negócios, as reformas, em grandes temas consensuais.
A unanimidade é uma descoberta dele. Tudo graças ao seu espírito comunicativo, ao seu trato simples e afável, ao seu tom de voz ameno para todos os parceiros sociais. Especialmente, quando concorda, amavelmente, com as ideias dos seus opositores políticos. Nunca experimentaram trocar nomes feios entre eles, nem falaram de incompetência nem de irresponsabilidade.
O meu ídolo fez renascer um país em ruínas, com políticos recauchutados, agora iguais aos novos, porque foram reciclados por alguém que sabe da matéria, quando ainda há pouco tempo, não sabia nada de nada, nem tão pouco falar do bem. Agora, porém, o meu ídolo fala bem e depressa, para que o país não perca tempo, porque perder tempo é coisa que o meu ídolo não pode, senão deixa de ser o meu ídolo. Isso seria a última coisa que ele quereria, porque sabe quanto isso é importante para o seu ego. Ser ídolo não é para qualquer um, tanto mais que antes dele ninguém, do governo, conseguiu ser ídolo de ninguém. Até mesmo eu, também não tive, antes dele, qualquer ídolo. Questões de mérito e qualidade que eu não enxergava nos anteriores.
Ele sabe disso e eu também, daí que eu seja especial para ele, como ele é especial para mim. Um verdadeiro ídolo que, tenho a certeza, ele é para a minha pessoa, como um privilégio e em exclusivo. Na verdade, ele é só e apenas meu ídolo, de mais ninguém senão, se o fosse assim à balda, de muita gente ao mesmo tempo, como iria eu querer uma coisa dessas... Nem pensar!
O que é meu, é só meu. Cada qual que tenha o ídolo que merece.