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afonsonunes

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Hoje é dia de enterro, segundo a tradição carnavalesca, uma vez que se enterrou o Entrudo, essa figura que nos lembra os velhos tempos em que, vivendo mal ou pessimamente, as pessoas sentiam-se muito mais felizes que hoje, em que até as que podem viver bem, se sentem muito mal.

Não será por ser dia de enterro que as pessoas vão ficar mais deprimidas e mais queixosas do que já andam, porque sabem perfeitamente que não se enterra nada nem ninguém, contra os desejos de toda gente. Ou haverá alguém que está feliz e satisfeito, com tudo aquilo que lhe está a acontecer, ou com tudo o que vê à sua volta?
Pois eu gostava mesmo de assistir a um funeral, que é o termo actual que substituiu o velho enterro. Claro que não quero o funeral de ninguém, que não sou nenhuma besta odiosa e terrífica para desejar uma coisa dessas. O que eu desejava ardentemente é que se enterrassem, com cerimónia fúnebre ou discretamente, todas as parvoíces e todas as demagogias que tantas doenças nos causam, e algumas delas até levam à cova.
Deixemos as coisas tétricas e voltemos ao enterro simples do Entrudo, que já foi feito, logo ao romper do dia desta quarta-feira. Muita gente dirá que não notou nada. Pois é verdade que eu também não. Como tudo na vida, isso tem uma explicação simples. É que terminou ontem um ano carnavalesco, mas hoje já começou um outro ano carnavalesco.
Aposto que durante esta quarta-feira, dia de enterro do Entrudo, não passa sem que venhamos a ver e a ouvir outros entrudos, que nos vão querer divertir com os seus ditos pretensamente cómicos, por vezes tragicamente cómicos, que nem sequer respeitam este período de tréguas que devia seguir-se ao Carnaval.
Claro que já ninguém se lembra que estamos na Quaresma, daqui até à Páscoa, período em que dantes, quase só se ouvia música sacra ou música dita séria, para não falar na seriedade que se foi com o período.
Mas, nem é preciso dizê-lo, o Carnaval continua e, este ano, com uma intensidade foliona que vai levar muita gente à loucura, muito mais intensa que aquela que já se sente no ar, hoje em dia. Os maiores foliões já se vestiram a rigor. A preparação dos corsos e dos desfiles que aí vêm, já começou há muito, se é que não dura, e dura, ao longo do ano inteiro.
São três, os grandes corsos previstos no calendário carnavalesco, mas antes de cada um deles, há os ensaios, as simulações, as previsões, as sondagens. Tudo por causa de quem vai ganhar os três corsos, depois de contados os nossos disputadíssimos votos.
Votos que servirão para eleger os reis do Carnaval dos próximos quatro anos se, entretanto, não houver uma qualquer palhaçada que estrague os resultados destes corsos que tanta animação prometem. Por causa de muitas alegorias, que são causa dos estragos causados nas escolas carnavalescas em competição.
Em cada escola que desfila, em cada um dos três corsos, há um rei, candidato a reinar. Nestes desfiles todos se mostram os reis da fantasia, da alegria, da prosperidade. A mim, lembra-me mais a Quaresma, a tristeza, as imagens dos altares de rosto tapado, o desejo de que algum dia chegará a Páscoa, que devolva o colorido às igrejas e aos fiéis.  
Para isso, é preciso que o rei do Carnaval que vier a ser eleito, não permita as muitas palhaçadas, que tão pouco nos têm divertido.