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afonsonunes

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02 Mar, 2009

Fantasma querido

Há dias em que o país fica suspenso à espera de notícias fresquinhas sobre um fantasma que, ora se esconde para que ninguém lhe veja a cara, ora arranja mil e uma maneiras de conseguir que toda a gente fale nele, ainda que não diga nada de jeito. Escondido, ou na montra do país, é um caso que surpreende a todo o momento, qualquer observador isento de medos, receios e quejandos, tão ao gosto do nosso querido fantasma.

Depois, para criar o ambiente propício à adulação de fantasmas queridos, aparecem os tabus convenientes e programados, que servem para levar os aduladores ao rubro, e o adulado à suprema consolação da fama, e ao conforto da continuação de um sonho mirífico de que não lhe passa pela cabeça acordar.
Como fantasma querido que é para alguns, e fantasma do ego para ele próprio, faz com que andem no ar medos que se chocam, como se os medos de fantasmas alguma vez os fizessem ressuscitar.
Se para uns ele é um fantasma querido, para outros é um fantasma perturbador, daí que não possam agir contra ele, com medo de consequências perniciosas para os seus interesses. Por outro lado, o fantasma, que diz que nunca teve medo, tem medo, sim, de aparecer em carne e osso, nos locais onde podia meter medo àqueles que também têm medo dele.
É por isso que o fantasma mete o pé invisível na casa onde recusa morar, para não perder a sua qualidade de fantasma dessa casa que tudo lhe dá, e do qual ela só recebe sustos e uns pontapés, a troco de bom dinheiro e boas reformas.
Neste caso espantoso de generosidade contra ingratidão, é a situação exemplar em que se pode dizer com toda a propriedade que quanto mais me bates, mais gosto de ti. Cá para mim, é o caso típico de um amor impossível, entre pessoas do mesmo sexo, que estão cheias de medo uma da outra, mas que têm de manter a relação, para que nenhum dos lados perca as vantagens que dela recebem.
É assim que um fantasma consegue ser querido por fora, enquanto é odiado por dentro, mas com toda a estima e consideração, para não estragar as aparências.
Quando chamam o fantasma com todo o carinho, ele responde com todo o orgulho de quem se julga acima das nuvens, na convicção de que essa posição estratégica lhe permite uma visão mais abrangente que o interior da casa onde sentiria sempre, grande dose de claustrofobia e um odioso medo de sentir uma mão amiga em cima do ombro.
O fantasma querido, nunca seria capaz de prescindir de falar de cima para baixo, bem como nunca seria capaz de falar de homem para homem, ao mesmo nível, sem a imprescindível condição de lhe colocarem um palanque para ele usar da palavra sempre que entendesse. Mas sempre com um degrau de vantagem sobre os outros.
Como todos os fantasmas, um dia terá o seu momento de glória.