Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

10 Mar, 2009

À força, nada

 

Tudo tem um jeito de se fazer. Até a guerra que representa a força bruta dos exércitos, depende muito das tácticas e ardis dos seus mentores e dos seus generais, na maneira como utilizam os seus recursos e a sua carne para canhão. Se a força faz muita falta, faz mais falta ainda saber utilizá-la com inteligência e bom senso.
Há um argumento inquestionável para poder utilizar-se a força, seja em que circunstância for, sem que fique a roer na consciência, de quem a tem, evidentemente, o peso de uma força que vai em sentido contrário à justiça que vem dos primórdios da humanidade.
Esse argumento chama-se, simplesmente, força da razão. A razão é uma palavra pequena, mas de um alcance humano extraordinário, contrariamente ao que certos guerreiros profissionais propalam a todo o momento, esquecendo que não há nada mais desumano que uma guerra feita a despropósito.
Ora o que se nos afigura natural e justo é que se lute por boas ideias e boas causas, pelo convencimento e pela demonstração das convicções, nos campos de discussão apropriados, dentro das regras estabelecidas pelas respectivas competições.
A força bruta, transformada em ferocidade felina, ainda que simplesmente verbal, não dá razão a ninguém e, muito menos ainda, quando baseada em argumentos que só os interesses individuais ou de grupo pretendem justificar.
Invocar liberdades, direitos e garantias, para fazer guerras, não digo greves, sem medir o alcance e o impacto que terão na generalidade dos cidadãos, pode apenas revelar desconhecimento, mas também pode revelar estranhos egoísmos e um perigoso conceito de interesses pessoais acima de todas as regras que regem a democracia.
A força das armas ou a força dos braços, nunca deviam servir para subjugar, ou pretender vergar consciências ou vontades legítimas, forças muito mais puras e até mais corajosas que aquelas forças desumanas, quase sempre eivadas das maiores crueldades. Depois de toda e qualquer violência, nada melhora, nem ninguém fica melhor.
O mundo está injusto e perigoso, mas não será uma qualquer guerra violenta, seja de que natureza for, que reporá os valores que se foram perdendo ao longo dos anos, tantas vezes por causa da banalização da violência e da ideia fácil de que todos temos direito a tudo o que vemos nas mãos dos outros.
Todos temos direito, sim, a uma vida digna, mas nunca a poderemos ter, se enveredarmos pelo caminho individualista do ódio e da ganância, ou do sonho idealista sem destino, pretensamente conquistado através da violência, ainda que verbal, escolhas que só nos conduzirão a guerras sujas, onde a miséria e a morte imperarão.     
Seria bom que alguns valentes e destemidos guerreiros dos nossos dias, e temos muitos por aí, permanentes propagandistas de forças que na realidade não têm, activos denunciadores de defeitos que não vêem em si próprios, fizessem uma digressão ao fundo da sua consciência e procurassem lá, a força da sua razão.
Talvez chegassem à conclusão de que tudo tem o seu jeito de fazer o que pretendemos. À força bruta, nada. Com a força das ideias, tudo.