Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

Já ouvi dizer que temos dois países distintos. Um a norte onde o desemprego alastra para números inimagináveis, na região que era tida como o centro do trabalho nacional. Outro a sul, onde os trabalhadores e os patrões lá se vão desenrascando de modo que a desgraça não suba muito.

Também se ouve dizer que temos dois tipos de população activa. Aquela quer a todo o custo arranjar um emprego e uma outra que quer trabalhar. Parece que há uma pequena diferença entre elas. É o problema do emprego e o problema do trabalho, pois a preferência vai quase sempre para o emprego sem trabalho.
Depois, também se ouve falar muito nos reformados. Há os que vivem à grande e à francesa com reformas que dão para tudo, mesmo não tendo descontado quase nada, durante o simulacro de serviço activo que tiveram. E há os reformados que não ganham quase nada, muitos deles, porque também não descontaram quase nada. Porque tinham magros salários, ou porque não declaravam os salários reais, para descontarem pouco.
Mas ainda há os reformados que recebem uma ou mais reformas, enquanto continuam a trabalhar e a ganhar salários, vigarizando o estado porque não descontam, e porque se reformaram quando ainda estavam em condições de trabalhar. Parece que a reforma só devia servir para quem deixou mesmo de trabalhar.
Também já ouvi dizer que há umas centenas de milhar de trabalhadores com dois ou mais empregos. Se fosse possível redistribuir esses empregos por desempregados, a nossa taxa de desemprego seria, certamente, menos de metade da actual. Com estas situações ninguém se preocupa. Nem o estado, nem os detractores do estado.
Toda a gente já ouviu dizer que há empresários que trabalham para produzir e há empresários que apenas se mantêm em actividade para receber os subsídios que sustentam muita gente que está feliz assim, embora, hipocritamente, diga o contrário. Trabalho, pouco, ou nenhum, subsídios, quanto mais melhor, mesmo que o país tenha de continuar a importar o que eles deviam e tinham obrigação de produzir.
A sociedade, em geral, quer que o estado dê, sem olhar a quem precisa e a quem está a receber injustamente aquilo que devia, realmente, ir para onde é preciso e urgente. Mas, para isso ninguém repara, ninguém fala, ninguém reclama, nem ninguém se sente prejudicado, sabendo que alguém está a meter-lhes as mãos nos bolsos. Pequenos prestadores de serviços, pequeno comércio, trabalhadores em nome individual, profissionais liberais, etc,, quantos deles não passam um recibo, por vezes de quantias bem elevadas que cobram, sabe-se lá com que seriedade.
Mas, as pessoas só se queixam do estado e de quem está, ocasionalmente, no poder. Quem quer mais solidariedade social, devia começar por olhar para si próprio e dar o exemplo, com a sua atitude, com a sua denúncia de situações que são um atentado aos pobres deste país. Pois, seriam bufos, não é? Eu sei quem pensa assim.
O próprio estado, de há muitos anos a esta parte, vem ignorando o abismo para onde nos empurra, só porque não tem tido a coragem de pegar no problema de fundo que é, tão simplesmente, fazer justiça, cidadão a cidadão, promovendo a criação ou o aperfeiçoamento, de organismos públicos que sejam reconhecidamente isentos e competentes, de modo a serem capazes de implementar essa justiça a todos os níveis. Mesmo contra a vontade dos que são sempre contra tudo. Sem demagogia, sem paternalismo.
Eu, cidadão simples e anónimo, não estou só agora um pouco preocupado com a situação do meu país. Há muitos anos, que eu estou muitíssimo preocupado, por ver que ninguém fez e ninguém parece querer fazer tudo o que faz falta, e depressa, pelo futuro do seu país.