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afonsonunes

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13 Mar, 2009

Caldeiradas

 

Não sei se as caldeiradas alguma vez chegaram a ser feitas em caldeiras. Tudo indica que sim, pois não estou a ver os antigos pescadores a terem os seus tachos apropriados para essa tarefa de misturar diversas qualidades de peixe para refeições que eram cozinhadas bem à sua maneira.
Tal mistifório alimentar, que é como quem diz uma miscelânea de ingredientes dentro de um recipiente, a caldeira, o tacho, ou a panela, pressupõe uma concordância, ou uma compatibilidade de sabores, que resultem num acepipe característico, que vem já dos tempos antigos onde, pelos vistos, já se comia bem.
Hoje, além da caldeirada gastronómica, temos os mistifórios de outros tipos, que somos obrigados a engolir a qualquer preço, mesmo que não passem de simples ou complicadas peixeiradas, não especificamente verificáveis nos tradicionais mercados do peixe. Não é novidade dizer-se que hoje, as peixeiras e os peixeiros incontidos, estão mesmo muito longe desses mercados.
Estou a lembrar-me dos mistifórios das diversas assembleias, onde o folclore das cores e o calor das peixeiradas, resultam numa simbiose perfeita, que nos conduz à harmoniosa visão de que, da discussão nasce a luz. Sim, isso é verdade que a luz nasce ali, mas raras vezes resiste aos sopros mais ou menos violentos que acabam par apagá-la, muito antes de poderem ver qualquer coisita.
Talvez fosse possível inventar uma espécie de simplex dos mistifórios, ou caldeiradas, com uma concepção mais gastronómica dessa especialidade. Como o valor e a qualidade de uma boa caldeirada, segundo dizem, reside na variedade de ingredientes, peixes e temperos, talvez pudéssemos aplicar a ideia na política.
Ideia que é muito simples. De um lado a caldeirada constituída pelo poder, onde entrariam os governantes e a força política apoiante. Com mais ou menos ingredientes a servirem de aromatizantes e estimuladores do apetite, seria sempre uma caldeirada de mono sabor. Do outro lado, uma caldeirada constituída por toda a oposição, rica de variedade e diversidade, com aromas e cheiros que se entre chocam, picante de fazer correr umas lágrimas, com vivacidade e animação constante, mesmo sobre o lume enquanto se cozinha.
Durante o banquete que essas caldeiradas proporcionariam, não há dúvida de que seriam bem diferentes as reacções dos comensais.
Os da caldeirada da mesa do poder, fariam o sacrifício da refeição, mais ou menos em silêncio, para lá das observações relativas à quantidade de sal e da qualidade do vinho, que lá se ia bebendo, para empurrar a caldeirada goelas abaixo. Uma sensaboria. Quase um frete.
A caldeirada da mesa da oposição, um mistifórdio perfeito, onde as ideias brotavam ao ritmo das garfadas e do esvaziar constante dos copos, produzia uma festa divertida e animada, como se cada um deles fosse o expoente máximo do que deveria ser a orientação do poder. O picante da caldeirada estendia-se até às palavras.
Depois de pedida a conta, o poder pagou discretamente e retirou-se. A oposição, leu e releu a factura, discutiu as parcelas, não concordou com o total, porque viu que havia mais euros que peixes à mesa. A conta derivou para uma grande peixeirada, também ela muito picante. Para já, não se prevê quando vai acabar.
É por isso que nem todos gostam das mesmas caldeiradas.