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afonsonunes

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Hoje é normal os meninos e as meninas terem a sua mesada desde muito tenra idade, reconhecendo os respectivos papás e mamãs, as necessidades básicas dos seus rebentos, com mais ou menos precocidade. Mesadas que serão muito diversificadas e de montantes ainda mais diversos, quase sempre em função das mesadas, de outras proveniências de receitas, dos seus progenitores ou equiparados, no exercício dessas funções.

A mesada representa actualmente o cartão de visita de novos e velhos, no salão de festas da sociedade, onde o montante determina o lugar e a mesa a que se tem direito, em contraste com os novos e velhos que ficam no exterior, se as suas mesadas forem inexistentes, ou de valor puramente simbólico.
Não adianta portanto que, faça chuva ou faça sol, se dêem desculpas para retardar ou suprimir a mesada, seja lá a quem for, sem que caia o Carmo e a Trindade. É evidente que ninguém gosta de perder nada, tal como ninguém, ou muito poucos, gostariam de morrer. Mas, tal como ninguém garante a vida eterna, também ninguém pode garantir mesadas intocáveis, sempre a subir, a um ritmo invariavelmente acelerado.
Isto é muito fácil de dizer, enquanto o problema anda lá por outras bandas, bem longe da minha casa e da minha gente. Porém, de repente, vejo-me confrontado com uma ocorrência que me obriga a reduzir as mesadas a que estou obrigado em família.
Por mais que eu explicasse que não tinha outra alternativa, choveram sobre mim, torrentes de críticas azedas e intransigentes, exigindo que as mesadas não só se mantivessem, como ainda tinha a obrigação de as aumentar, devido às necessidades acrescidas, em resultado da minha confessada dificuldade. Por isso, não me livrei de ouvir, mais que uma vez - não me toques na mesada!...
Como se as mesadas deles não saíssem da minha mesada, agora bastante reduzida. Como se na minha própria casa, fosse eu o único a ter de limitar os meus gastos pessoais, ou tivesse mesmo de me suicidar para que acreditassem nas minhas palavras. Como se fosse o único membro da família a não falar verdade. Como se todos fossem santos e eu fosse uma espécie de abominável homem das mentiras.
Eu sei que não sou santo, nem mesmo de pau carunchoso mas, a verdade é que tenho uma mesada, porque me sacrifiquei a trabalhar para garantir mesadas a quem nunca deu um pequeno passo sequer, para fazer alguma coisa de útil, pelo sucesso e bem estar dos membros de toda a família. Pelo contrário, lá em casa, na minha família, pensam que são génios de geração espontânea e que eu só sirvo para aumentar mesadas, enquanto a eles apenas compete gastá-las, sem qualquer limitação ou restrição.
Estarão a pensar que a minha família deve ser assim uma espécie de assembleia da política, onde todos ralham e ninguém tem razão, só porque não há pão que chegue para tapar tanta vontade comer. Claro que eu não sou adivinho, mas devem estar a pensar que esse pão, não tem nada a ver com mesadas. 
Eu sei quem é que não é bom chefe de família e eles, lá em casa, só vão saber quem é que não lhes vai aumentar as mesadas, quando tiverem que ir chamar pai a outro.