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afonsonunes

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Por entre as coisas verdadeiras que vamos ouvindo ao longo de um dia de bem intencionadas escutas legais e naturais, descobrimos muitas coisas falsas, se mantivermos devidamente activo, o crivo que retém o lixo sonoro mais grosso, que não passa nem interessa e, principalmente, tudo o que é empurrado à força para os nossos ouvidos, tentando vencer a resistência do crivo.

Estamos a ouvir falar muito de verdade e, em meu entender, isso é muito mau sinal. É que a verdade não precisa de ser publicitada por quem a pretende vender, apregoando aos sete ventos que é dono dela. Se a usa, não precisa de o dizer, a menos que queira insinuar, no mínimo, que a sua verdade é melhor que a de outros ou, querendo ser mais incisivo, que alguém anda a mentir.
Pior que tudo nessa matéria, é quem se arvora em paladino da verdade e, logo a seguir, larga uma série de bojardas de alto lá com elas. E eu fico sem saber se hei-de rir ou se devo meter a cabeça entre as mãos e desatar a soluçar porque, na verdade, eu tenho muita pena quando vejo a verdadeira verdade ser atropelada por alguém que, notoriamente, não sabe conduzir.
Quem não sabe conduzir nada nem ninguém, não devia possuir carta, nem sequer para abrir a boca, quanto mais para botar asneira de cabeça levantada mas, com as costas meio dobradas, botando assim para o ar, em nome da verdade, umas tantas arrancadas sonantes mas, inequivocamente, falsas verdades. Conduzir assim, é estar a contribuir para que não tarde que a carta lhe seja cassada e, pior ainda, é que se arrisca a que ninguém mais lhe passe cartão.
A verdadeira verdade e a falsa verdade estão cada vez mais difíceis de identificar, assumindo-se como duas gémeas que tudo fazem para confundir quem as observa. Tudo por causa das roupagens que lhes põem em cima e de quem não se cansa de as promover com meias verdades que, normalmente, são verdadeiras mentiras encapotadas.
Entrar mosca ou sair asneira, já tanto faz, porque o mal vem do facto de a boca se abrir do tipo de portão com comando à distância, sem que o pensamento tenha entrado na operação, isto é, tenha alinhavado uma ideia séria e verdadeira (de verdade), e só depois dar ordem à boca para a soltar. Assim é que é falar verdade, verdadeiramente.
As falsas verdades podem dar a volta ao mundo, podem fazer rir os nossos vizinhos, ou podem ir a Espanha fazer compras e voltar, que sempre estarão a contribuir para que haja um coveiro, que pode mesmo andar meio distraído, mas sempre a trabalhar para enterrar quem não sabe, nem quer, ser verdadeiro nos ditos que profere e nas palavras insidiosas que cheiram logo àquilo que na realidade são.
A mim, por mais que tentem, não me vendem verdades falsas, só porque me garantem que são verdadeiras. Posso comprar mentiras por verdades, mas aí, não tenho dúvidas. Estou a ser enganado, ou já fui enganado.