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afonsonunes

afonsonunes

22 Mar, 2009

Assim não, prima

 

Já é a terceira vez que tenho de chamar a minha prima Ambrosina a estas andanças, que ela diz que detesta mas, volta não volta, lá faz a sua perninha de marotice. Já o disse anteriormente, por duas vezes, e repito agora, que a minha prima é um espanto de mulher. Diz assim umas coisas que, normalmente, há quem se evite de dizer. Depois, em contrapartida, lá sai uma argolada que a faz meter as mãos na boca e roer as unhas até sentir o gosto a sangue quente.
Então, não é que me pediu agora para lhe arranjar uma maneira de a ajudar a ir para Inglaterra, porque se lembrou de que tinha de ir lá esclarecer umas coisas que andam aí muito na berra. Fiz-lhe ver que isso era muito caro para a bolsa dela pois, provavelmente, a avaliar pelo que se tem passado, poderia ter de ficar por lá uns quatro ou cinco anos.
Além disso, informei-a de que já lá estava uma portuguesa, pelo menos, a tentar fazer o mesmo, e que até agora… nicles. Não senhor… Nada disso… Respondeu-me ela com grande alvoroço. Eu sei que ela já sabe quase tudo. Por isso é que eu tenho de ir com urgência, descobrir o resto, senão ela acaba por se antecipar e descobre o que eu penso que é mentira. Ora, o que eu quero é descobrir a verdade.
Como é fácil de imaginar, fiquei para morrer com esta revelação. Mas, havia mais. Ao fazer-lhe uma previsão dos gastos diários, a pedido dela ouvi, com mais espanto ainda, que também tinha de levar a mãe, precisamente, a minha tia Felicidade. Mas, porquê? Oh primo, então achavas bem que a tua prima fosse para Inglaterra sem a tua tia? O que não se diria em Portugal…
Tentei fazer-lhe ver que ninguém diria nada, até porque a minha prima Ambrosina não é assim tão conhecida, senão na aldeia onde vive com a minha tia, Felicidade de seu nome. Não sei porquê, mas este nome nunca me soou lá muito bem. Acho que tem letras a mais.
Não, querido primo, ripostou ela, eu e a minha mãezinha, tua tia, ainda somos do bom tempo. Uma senhora sozinha, em Lisboa ou em Londres, daria logo azo a maus pensamentos e, sabe-se lá, até podiam chamar-me cabrinha. Há gente tão mal intencionada. Mas, o que eu queria, primo, era que me adiantasses a massinha suficiente para a estadia, pois para as viagens a gente arranja por outro lado.
Por outro lado, priminha, qual lado? Vamos lá ver se me estás a querer meter numa embrulhada qualquer. Sabes bem que eu não sou dessas coisas. Além disso, eu não ganho para despesas dessas. Sabes que eu até ganho pouco, tendo em conta as chatices que tenho. É melhor desistires dessa ideia, prima.
Isso nunca, meu querido primo. Nem eu, nem a tua querida tia, vez alguma, deixaríamos que essa tal, que anda por lá sozinha, viesse para cá dizer coisas que nunca viu. Isso nunca. A verdade tem de ser descoberta, mas é por mim, Ambrosina, tua prima que nunca dirá mal de ti, nem cá, nem na Inglaterra.
Que havia eu de fazer? Família é sempre família, seja em Lisboa, seja em Londres

 

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