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afonsonunes

afonsonunes

27 Mar, 2009

Tem de ser verdade

 

 
Então não é que se descobriu agora que o homem comprou uma casa a pronto pagamento? Se outras provas não houvesse, esta é decisiva para justificar o uso de luvas, depois de pagar o valor do imóvel com dinheirinho contado na hora. Toda a gente sabe que o dinheiro é uma coisa suja, que anda de mão em mão, como as pombinhas da ‘catrina’.
Portanto, está devidamente provado que, com as luvas calçadas, pagou a casa a pronto. Não é preciso ser grande investigador, ou detective, como o Sherlock Holmes, símbolo dos bons, ou melhor, dos excelentes investigadores criminais ingleses, que já deram vários bigodes aos discretos investigadores portugueses, no dizer de uns excelentes investigadores de investigadores.
Não há nada como ser bom e nós, portugueses, temos uma plêiade de autênticos artistas da antecipação, quando decorrem investigações que metam investigadores portugueses e ingleses. É assim uma espécie de guerra norte-sul, quando se trata de julgar qualquer conflito entre nortenhos e sulistas, pelos distintos julgadores prematuros.
Mas, agora, não quero julgar nada nem ninguém, porque também comprei uma casa a pronto pagamento e estou cheinho de tremeliques, com receio de que descubram essa minha trafulhice. E, ainda por cima, já não me lembro se usei luvas quando passei o cheque, embora não seja tão sujeito a contaminações como o dinheiro contado nota a nota. Nessa altura, o cheque ainda não estava tão careca como agora. Coisas dos tempos.
Pois é verdade. Quem comprou uma casa a pronto pagamento vai ter de se haver com prolongadas e penosas investigações que, inevitavelmente, levarão o seu tempo, o tempo da justiça que, só não será muito mais demorada, porque quase toda a gente comprou a casa a crédito e, algumas delas, para não dizer muitas, já foram devolvidas por causa da taxa euribor. Ser sério, sério, é comprar a crédito.
Neste momento, o país está cheio de gente que tem pena daquele homem que comprou uma casa a pronto pagamento, pois sabe perfeitamente que ele caiu numa armadilha montada pelos promotores de vendas a crédito, como retaliação pela mania das grandezas, daquele homem que tem de andar sempre de luvas enfiadas, porque cumprimenta gente que não costuma lavar as mãos.
Em contrapartida, há quem pense que ele anda sempre de luvas, porque tem as mãos sujas e, assim, não deve contaminar as mãos que tem de apertar a toda a hora, em reuniões de cumprimentos sem fim. É a eterna guerra das luvas, umas baratinhas, outras de valor muito elevado. Algumas atingem mesmo verbas exorbitantes, que não estão ao alcance de algibeiras portuguesas. É por isso que aparecem os ingleses, cheios de libras atafulhadas por todos os bolsos.
Nunca percebi estas polémicas à volta de luvas, pois no Inverno, vá que não vá. Está frio que se farta. Mas no Verão, com o nosso calor tórrido, alguém pode pensar em luvas? Sinceramente, só aquelas pessoas que já nasceram de luvas enfiadas nas mãos. Algumas delas, também andam sempre de gorro enterrado até às orelhas, o que as leva a ouvir só o que lhes interessa.
Como se sabe, os gorros são as luvas que andam na cabeça de muita gente.