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afonsonunes

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Como o nível do debate político anda muito por baixo, também podemos baixar o nível das nossas palavras, tal como já o fez muita gente que anda nestas andanças, por gosto ou por profissão. É por isso que utilizo a palavra pá, que é um termo de difícil caracterização, embora de uso bastante corrente.

Se falarmos de pá e vassoura estamos a pensar em limpeza, coisa que nunca é demais realçar, sobretudo quando há falta dela. Dirão que isto, afinal, não é política, como seria suposto deduzir-se do título desta escrita. Penso que, se há coisa que mais precise de limpeza, é exactamente certa política que se atravessa diante dos nossos olhos.
Nesse caso, antes da pá, tem de entrar em acção a vassoura, que faz aqueles montinhos, maiores ou menores, que depois passam a ser recolhidos pela pá. O problema está em fazer os montinhos. ‘Oh pá, isso é muito difícil’. Simplesmente, porque ninguém se acha em condições de ir parar aos montinhos, que são uma das fases da limpeza, onde não entram os aspiradores.
‘Isto é intolerável, pá’. Diria um sujeito que eu cá sei, quando se visse na eminência de fazer parte de um montinho. Eu responderia com toda a calma, sem qualquer tipo de constrangimento que, ‘isso é chato, pá’, mas quem anda à chuva molha-se e, que eu saiba, para a língua ainda não existe guarda-chuva.
‘É a vida, pá’, e eu não compreendo lá muito bem porque razão se fala tanto de montinhos, dos quais nem sequer se conhece a composição, mas sabe-se que quanto mais se mexe neles mais mal cheira, deixando a convicção de que já há gente que corre graves riscos de ter de engolir aquilo que já tresanda de podre e de fedorento.
‘Pois é, pá’, o pagode até gosta de ouvir umas patranhas de vez em quando, para animar a malta que anda chateada de não acontecer nada que não cheire a perfume barato, mas perfume, que não é nada que se compare com essa coisa dos montinhos, que depois a pá recolhe, para não falar em outros montes que vão para outros lados.
‘Com caraças, pá’, já não há mais nada para dizer, nem para ouvir, que não vá dar sempre à idade da pedra. Mas é daquela pedra que é parecida com os calhaus que um dia apareceram à face da terra, a dizer que o tempo estava de trovoada. E vai daí, ainda não deixaram de produzir faíscas, a imitar relâmpagos que, embora de vez em quando sosseguem por uns tempitos, volta não volta, lá vêem novamente com a trovoada e com as faíscas. Que nem sequer mudam de cor e nunca mais chegam a ser relâmpagos a sério. ‘Eh pá’, assim não dá para a gente acreditar no ribombar do trovão, se um dia for a sério.
‘Chiça, pá’, tempo chato p’ra caraças. A gente até gosta de saber quem é que anda a fabricar chatices que dão origem às trovoadas e às faíscas dos tipos da idade da pedra, que nunca saem da mesma caverna. Mas, também, não abusem de nós, sem darem uma espreitadela pelo buraco de entrada, e verem se realmente há trovoada ou não.
´Pois é, pá’, se vocês não sabem nada cá de fora, não se deitem a fazer faíscas aí dentro, senão correm o risco de destruir a caverna, com alguma explosão dos vossos próprios gases.
Vamos lá ver quem é que, no fim, diz: ‘porreiro pá’. Mas, para já, ‘assim não vale, pá’.