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afonsonunes

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Dia negro na família
Um problema na nossa família é uma coisa muito séria, diria mesmo que pode ser um drama de todo o tamanho, ou um acontecimento definitivamente demolidor. Mas, se o problema for na família dos outros, então isso, o mais que pode é espicaçar-nos o instinto para lhe acrescentarmos mais uns problemazinhos, de modo a ganharmos o estatuto de velhinha que está sentada na soleira da porta de casa, fiando ao sol de inverno, na remota aldeia do interior raiano.
Como a cena se passa na zona da raia, até convém passar a fronteira, para saber o que nos dizem do lado de lá, sobre o que nós fazemos do lado de cá. Sim, porque nós somos todos uns nabos que só confiamos na sensata palavra dos nossos vizinhos, ainda que seja sobre assuntos da nossa família mais próxima.
Malaquias, homem sério e modesto trabalhador, passa as horas de folga a caminho do país vizinho a fazer as compritas banais do dia-a-dia, como encher o depósito da motorizada, comprar uns chispes, uma couve-galega, uma onça de tabaco, uma caixa de fósforos e, às vezes, umas gambitas e uma lata de cerveja. Diz que assim ganha muito dinheiro.
Porém, há dias, o homem vinha de lá completamente transtornado, tanto que nem meteu as gambas e a cerveja no frigorífico, porque ao chegar a casa dirigiu-se logo à mulher, indignadíssimo, perguntando-lhe quando é que ela se tinha metido na cama enquanto ele fora às compras. Claro que a mulher ficou a olhar para ele, sem saber se estava a ser acusada de preguiçosa ou de andar a dormir fora de horas.
Oh mulher, disseram-me que te meteste na cama com um homem, enquanto eu fui descansadinho às compras. Estás parvo ou quê? Respondeu ela vermelha que nem um pimento.
Isto, já de si parece um drama, mas a verdade é que, depois de uma acesa troca de informações, indispensáveis a uma conclusão razoável do conflito, Malaquias ficou entalado entre a nega da mulher e a certeza que lhe garantira o denunciante, que ele até nem conhecia de lado nenhum, e que receava bem não voltar ver.
A mulher bem lhe lembrou se ele acreditava mais na palavra de um desconhecido, do lado de lá da fronteira, do que da palavra dela, companheira de largos anos já decorridos na companhia um do outro. Malaquias pareceu reagir favoravelmente a este argumento.
Mas, no dia seguinte, o Tó da tasca da aldeia perguntou-lhe se ele já dissera à mulher que ia divorciar-se. Eu? Sim, tu, Malaquias. Então não estás farto de saber aquilo que toda a gente da aldeia já sabe?
Ficou abananado, o bom do Malaquias. Mais ainda, quando entrou uma velhota de nariz arrebitado, que lhe atirou à cara, se ele ainda estava em casa com a mulher. Uma coisa destas nunca aconteceu nesta terra, Malaquias. Vê bem. Pensa bem. O povo já não pode olhar para a tua mulher.
O homem dirigiu-se para a porta da tasca sem dizer palavra. Reflectiu um pouco. Depois, serenamente, voltou-se e perguntou, quem é que tinha uma só prova de que isso era verdade. Toda a gente fala nisso. Queres melhor prova? A velhota estava azeda e o taberneiro acenava com a cabeça.
Malaquias virou-lhes as costas. Voz de burro não chega ao Céu, pensou, tal como a voz do povo, nem sempre é voz de Deus. E foi para casa ao encontro da mulher, que devia estar a precisar do seu apoio.