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afonsonunes

afonsonunes

19 Jul, 2008

Vírgulas e pontos

 

 
 
Portugal é um belo texto literário cheio de vírgulas mas, curiosamente, sem um único ponto final. À primeira vista, parece não haver qualquer inconveniente, pois as letras têm um formato agradável, as linhas estão muito direitinhas e as palavras constam quase todas do dicionário de língua portuguesa.
Começada a leitura, muito cautelosa, primeiro, de cima para baixo e da esquerda para a direita, os olhos dão alguns sinais de se trocarem e o pensamento baralha-se com o sentido que nunca mais se clarifica. Feita outra experiência de leitura, agora de baixo para cima e da direita para a esquerda, a confusão torna-se ainda maior devido às sílabas esquisitas que dificilmente se pronunciam sem alguns esgares que mais parecem de países longínquos.
Como é possível, um país de tão vastas tradições, com um passado do tamanho de todos os oceanos juntos, ser um texto que ninguém percebe, cheio de vírgulas por todos os lados, mas que nunca mais tem um ponto final, onde se possa parar, ao menos para poder respirar.
Assim, Portugal lê-se de ponta a ponta mas não se percebe nada do que se leu. É um amontoado de palavras e de vírgulas, em que cada um de nós tem de imaginar onde devia estar plantado um ponto final que arrumasse as ideias e desse sentido ao texto.
Uns dizem que o ponto final devia estar a seguir à palavra justiça, outros entendem que aí, uma vírgula resolvia perfeitamente a questão pois, logo a seguir, tem de estar intimamente ligada, no mesmo período gramatical, a palavra corrupção. É evidente que justiça, vírgula, corrupção, não é a mesma coisa que justiça. Ponto final. Corrupção. Basta começar a dissertar, como tantos gostam, sobre a maneira de provar as diferenças e as semelhanças das duas situações, para se chegar à conclusão de que, discussões sobre o texto que é Portugal, não conduz a lado nenhum. Tudo porque não há, efectivamente, um único ponto final que acabe com as discussões estéreis e dê claramente a todos os que nunca mais se calam, um sinal inequívoco de que a frase termina ali mesmo.
As vírgulas são muito importantes, tão importantes como as palavras, mas um amontoado de frases, não é mesmo nada, sem um definitivo ponto final.
Portugal tem de ter principio, meio e ponto final.

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