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afonsonunes

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06 Abr, 2009

Independentes?

 

 Começo já por dizer que não gosto de independentes, embora pareça uma daquelas birras que tanto minam o consciente e o subconsciente de tanta gente que adora dizer coisas da boca para fora. Os independentes, melhor, aqueles e aquelas que se dizem independentes, lá terão as suas razões para realçarem essa coisa que não tem medida, nem prova de que existe na prática.
Eu também posso dizer que sou independente, mas não digo uma coisa dessas a sério. Em primeiro lugar, porque ninguém ia acreditar assim, sem mais nem menos, num dito que até pode dar para rir. Em segundo lugar, porque a minha independência estará quase sempre mais dependente dos outros que de mim próprio.
Mas, isso é no meu caso, que julgo que sou mais independente do que ninguém. É por isso que já tenho ouvido dizer que o bom julgador a si se julga. É, precisamente, o que eu faço. No caso dos outros, é bem mais fácil encontrar os pontos fracos dessa independência, pois a direcção do meu olhar está de frente para eles, enquanto, para olhar para mim próprio, é preciso virar os olhos do avesso.
Penso que a primeira condição para se ser independente, é não ter amigos. No caso de os ter, depressa se perde a independência, ou então perdem-se os amigos, sendo mais provável que ela e eles se percam de uma vez só.
A segunda condição é ser capaz de manter a boca fechada durante todo o dia, ainda que tenha vontade de gritar, de rir ou de chorar, perante tudo o que ouve, lê e vê, ao longo desse dia de trabalho ou de descanso, voluntário ou forçado, conforme o caso.
A terceira condição é não ter um estômago permanentemente a reclamar o fim dos apertos e contracções, que só irão desaparecer quando a barriguinha estiver encostada a ele, ambos com uma vontade enorme de bater uma sorna silenciosa.
Claro que há muito mais condições para manter o estatuto de independência, que muitos afirmam ter, mas que nem à lupa se consegue descortiná-lo.
Depois há estatutos de independência para tudo e mais alguma coisa. Cá no meu entender, quanto mais se reclamam de independentes, maior é a dependência clamorosa e evidente que, por mais que se pintem, não conseguem iludir ninguém.
Se a independência não mata a fome a ninguém, a dependência cega, quem anda numa roda viva à procura do lucro. Lucro que pode ser pessoal, corporativo, ou empresarial, em todos os casos, muitas vezes, através de atropelos a quem estorva, ignorando as mais elementares regras da concorrência, violando direitos fundamentais dos cidadãos, usando e abusando de métodos e processos só possíveis onde sabem que a impunidade impera.        
Gostaria de poder falar sobre políticos independentes. Tal como gostaria de falar sobre sindicalistas independentes. De televisões independentes. De jornais independentes. De rádios independentes. E dos muitos que, dentro dos locais onde estão, a trabalhar ou a brincar com a gente, apregoam a todo o momento, carradas de independência.
Gostaria de falar de tudo isso. Mas não falo, porque teria de perder a minha decência, e mostrar a independência que receio bem que não tenha.