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afonsonunes

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13 Abr, 2009

O jardim da Celeste

 

Estava longe de me lembrar da Celeste e muito menos do seu jardim. E, já agora, muito menos ainda do jardineiro que a servia e lhe tratava do jardim. O que me vale é ter uma prima que não se esquece de nada e, de vez em quando, lá tem de me chamar a atenção para os meus descuidos e esquecimentos.
É verdade, a minha prima Ambrosina diz que leu uma notícia sobre as desconfianças existentes entre alguém e não sei mais quem. E vai daí, veio logo ter comigo para me explicar tudo direitinho, segundo a sua própria expressão.
Olha, primo, essa coisa das desconfianças é tudo uma treta. Sabes porquê? Eu explico. Tudo começou quando a Celeste tomou conta do jardim e contratou o jardineiro que, bem me lembro, chamava-se Adelino. Esta contratação provocou um reboliço danado nas redondezas.
Porquê? Porque o jardim já não era propriamente um asseio. Mas, toda a gente previu de imediato que o Adelino iria assassinar o que ainda restava dele. Ora, as pessoas das redondezas gostavam de ver o jardim bem tratado. Até eu, vincava ela.
Olha primo, a primeira coisa que o Adelino fez, foi deitar grandes árvores abaixo, em lugar de limpar o jardim e de arrancar as ervas daninhas. Vê lá tu, primo, sem árvores, as ervas daninhas depressa arrasaram o jardim.
E, como se não bastasse, acrescentou ela com aquele ar de espanto que só ela arranja, o malfadado Adelino, em lugar de dedicar o seu tempo a cuidar do jardim, estava todo o santo dia a ouvir gravações de cassetes e a falar ao telemóvel ao mesmo tempo.
Ninguém me disse, continuou ela, mas eu desconfio que o Adelino ia falando ao telemóvel para dar lugar a novas gravações. Quer se dizer, aquilo era fabrico em série, assim do género de uma grande linha de produção de novelas, em que o enredo tem de ter seguimento de dia para dia.
Tive de interromper a minha prima e chamar-lhe a atenção para o facto de, afinal, ela só ter falado de uma única desconfiança: a dela própria. Onde é que estavam as outras?
Oh primo, eu sei que tu és como os outros. Muito esquecido e ainda mais distraído. Será que não compreendes que o jardim da Celeste e o seu jardineiro Adelino, foram os coveiros de um jardim que só agora dizem estar morto e enterrado? Vir agora falar de desconfianças, é querer deitar uma pá de terra da cova, para os nossos olhos.
A minha prima Ambrosina tem destas recordações que me deixam a olhar para ela. Depois, tento levar a memória atrás da Celeste e do Adelino, e perco-lhes o rasto. Tal como se perderam todas as cassetes que ele ouvia. Será que ele e elas desapareceram mesmo? É estranho. Muito estranho. Até parece que o jardim virou cemitério.
Confessei à minha prima Ambrosina que fiquei tão baralhado, que já não sei se este jardim infestado, se refere a uma injustiça ou a uma justiça.