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afonsonunes

afonsonunes

16 Abr, 2009

Adeus cão

 

Já estamos habituados a dizer adeus a muitas coisas que nos faziam falta, ou nos davam um jeitão para minorar as nossas lamúrias diárias. É claro que quando digo nossas, é porque não quero ser desmancha-prazeres, nem tão pouco indelicado para com aqueles que realmente dizem adeus a tudo o que não lhes seja dado numa bandeja de prata.
Tenho consciência de que os lamurientos podiam ganhar complexos de coitadinhos, se pensassem que eram só eles a fazer o choradinho permanente de terem de chegar muita cebola aos olhos para que alguma coisa lhes chegue às mãos. Ora, uma boa parte dos que muito se choram, nem sequer o fazem porque precisam que lhes dêem seja o que for.
São um tanto parecidos com os cleptomaníacos, que roubam por vício. Os lamurientos não roubam nada a ninguém, antes pelo contrário, pretendem dar a toda a gente a angústia que os prostra, se não alimentam aquele vício doentio de se queixarem. Roubar ou dar, se transformados em dois vícios indomáveis, são iguais nas consequências a que conduzem os seus viciados.
Em contrapartida, temos uma grande disponibilidade para sonhar com coisas em grande, daquelas que não se conseguem todos os dias mas que, com aquela dose de fanfarronice, se dão como conseguidas antes de decididas. Também aqui, digo, temos, para não frustrar certos sonhadores, que são todos aqueles que julgam ganhar a taluda sem jogar.
Tenho as minhas dúvidas se tal excesso de confiança será um vício ou uma virtude. Mas não tenho dúvida alguma de que se trata de contar com o ovo no interior da galinha, como se do exterior se visse o que está, ou não está, lá dentro.
É assim em todos os temas que apaixonam, da política ao futebol, em que se ganha tudo, com resultados indiscutíveis, em previsões sobre o joelho, com a língua a badalar e a cabeça a delirar.
Ia a dizer que somos assim, mas arrependi-me. Na verdade, há aqueles que são assim, mas também há os que são o contrário, bem como aqueles que, estando no meio-termo, estão mais próximos da prudência e do bom senso.
E foi assim que lá se foi o cão de água português, algarvio, que ainda estava fora da barriga da cadela e, quem sabe, fora do cão que havia de o fazer, e já tinha lugar garantido na casa do presidente. Quantas laudas se escreveram e quantas reportagens se alimentaram de uma fantasia igual a tantas outras que acabam no vazio de sonhos mais ou menos criados em cima de uma profunda ilusão.
O sonho comanda a vida, dizem e com razão. Mas o sonho não pode alimentar-se de olhos sempre fechados, nem com eles demasiado abertos. O pessimismo pode destruir muitas vidas, se semeado em torno de uma realidade que se esconde maldosamente.
O país, o clube, o partido, a selecção, o governo ou a oposição, tão depressa são bestas como bestiais, para uma parte dos cidadãos. É por isso que há quem diga que vivemos num mundo cão. Talvez seja por causa disso que o nosso cão de água se ficou por cá. Para emigrantes já bastam as pessoas.