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afonsonunes

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É evidente que não falo sobre isso mas posso falar sobre aquilo. E, bem vistas as coisas, isso, bem conversadinho, até pode ser dito, fazendo de conta que é aquilo. É tudo uma questão de eu me convencer que estou a falar para quem não costuma ouvir determinado tipo de gente, que fala para outra gente, que não costuma entender nada de nada, ou então entende mas, como lhe convém, faz de conta que isso é que é falar.
Mas, eu não quero falar sobre isso. Até podia dizer que não devo mas, na verdade, penso que a minha posição, neste momento de pé, é demasiado incómoda para falar em desgraças que, se falasse nelas, faria de mim, um desgraçado igual aos outros. Portanto, eu, na minha posição, agora que já estou sentado, digo apenas que entendo perfeitamente as desgraças dos outros, mas há outros que podiam fazer mais que eu.
Como já disse, não quero falar sobre isso, mais, não devo falar sobre isso, mas aquilo que eu posso dizer, é que tudo isso me incomoda bastante, mas não me perguntem porquê, pois não posso dizer, nem devo dizer mais nada sobre isso. Peço que compreendam, mas é por causa da minha posição que, agora, podem crer que não é de cócoras.  
É claro que estou muito preocupado com tudo isso, que até já falei muito sobre isso, que há quem esteja sempre à espera que eu diga aquilo que não devo mas, compreendam, eu tenho de ser superior à tentação de falar sobre isso como, certamente, lhes daria muito prazer em ouvir a minha inquestionável opinião.
Em boa verdade, quando eu falo, não estou propriamente a dar uma opinião porque, como compreendem perfeitamente, quando falo sobre aquilo, é muito mais que uma opinião, é uma doutrinadora sentença, não de um qualquer juiz do sindicato ou da liga, mas de alguém que sabe perfeitamente que não pode falar sobre isso.
Eu sei que isso é muito importante para todos vós, e é muito mais importante para mim, o que me leva a considerar que a situação é muito grave mas, como compreendem, não posso dizer mais nada sobre isso, devido à minha posição que, desde há largos minutos a esta parte, é de costas na horizontal.
Há quem pense que eu, não só, posso falar sobre isso, mas devo dar explicações da minha atitude, devido à obrigação que me atribuem de estar sempre atento, sempre bem informado e disposto a partilhar com todos, as informações que me dão e que eu posso pedir, sem aquele medo que me acusem de estar a pressionar seja quem for. Não é que eu não possa mesmo fazer pressão, não é que eu não deva pressionar quem eu quiser, mas custa-me falar sobre isso.
Se quiserem, eu falo com muito gosto sobre aquilo, quando quiserem e onde lhes apetecer, com a condição de tomarem a liberdade de poder dizer que eu falei sobre isso, mesmo sabendo que eu apenas falei sobre aquilo.
Eu sei perfeitamente que há por aí quem diga que, se não posso nem devo falar sobre isso, então que não fale mesmo. Se, caso contrário, quiser e puder falar sobre isso, que fale mesmo de tudo o que for isso, mais de tudo o que for aquilo. E ainda que eu o faça de forma clara e que toda a gente entenda.
Pois, eu bem queria, mas não posso, nem devo, devido à minha posição que, como facilmente se percebe, é de um inveterado autor de parvoíces.