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afonsonunes

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20 Abr, 2009

Leitidos e rangidos

 

São tantos os ruídos que nos assolam os ouvidos, como tantos são os micróbios que temos de engolir a toda a hora, por onde quer que tentemos esconder-nos. Só que, contra os micróbios ainda vamos tendo as nossas defesas naturais, ajudadas por um ou outro comprimido ou injecção.
Já contra o ruído de certas vozes, umas roucas outras sibilinas, não há medicamentos que nos salvem, principalmente, quando as defesas naturais e todas as artificiais, foram engolidas pela voragem de umas barriguinhas ou de umas barrigonas, que nunca dão sinais de enfartamento, apesar de tantas vezes serem um fartote.
Com os latidos, isto dito com um sotaque inglês seria leitidos, a gente ainda vai podendo passar pelas brasas, tanto de dia como pela noite dentro mas, para desgraça nossa, a vozearia de certas figuras, por vezes completamente desfiguradas, levam-nos a não pregar olho, com medo que as suas profecias algum dia cheguem a transformar-se em realidade.
Os rangidos são muito semelhantes aos leitidos, na medida em que são oriundos da mesma casa, onde quase tudo range. Contudo, os rangidos, vêm de uma figura cilíndrica de raio desproporcionado em relação à altura. Tal significa que os rangidos que solta, sejam o resultado de uma voz que atravessa todo o interior daquele pote vazio, após o que mais parece música de serrote. Com tremeliques e tudo.
No entanto, temos de reconhecer que, tanto os leitidos como os rangidos, são música de um concerto, que alguns classificam de conserto, devido à enorme avaria que sofreram em tempos idos, cuja factura, não sendo falsa, tem dado muito trabalho e continuará a dar, uma vez que o recibo que lhe corresponde nunca mais aparece.
Esta sinfonia de leitidos e rangidos faz lembrar aqueles lenhadores da floresta que, de machado em punho, costumavam dizer que, ou vai ou racha, quando alguma árvore mais renitente dificultava as machadadas, sempre com o abate por objectivo.
Mas, se com os rangidos parece que a coisa vai, já com os leitidos a coisa é mais para racha. Porém, a floresta é grande e o machado é curto, havendo apenas a sensação de que tais ruídos são mais incomodativos que eficazes.
Os lenhadores nem sempre se entendem nas árvores a abater e, por entre leitidos e rangidos, o ruído cresce e a lenha não aparece em quantidade suficiente para aquecer tantos compradores potenciais. O machado, que nem sempre é de paz, lá vai rachando umas cavacas que servem de lenitivo a tantas canseiras.
Depois, apesar do risco permanente de incêndio na floresta, os rangidos e os leitidos não param de produzir ruídos ensurdecedores, nem de fazer perigosas faíscas entre eles.