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afonsonunes

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22 Abr, 2009

Estamos lixados

 

Estou a ficar completamente desiludido com as cartas que o distribuidor postal mete na minha caixa do correio. Vim agora a saber que uma carta que recebi há tempos sem remetente e sem assinatura, afinal era de um amigo de longa data e, resumidamente, destinava-se a passar-me um elogio de todo o tamanho.
Ora essa carta, que eu julgava que era anónima, não me mereceu qualquer atenção, que é o que devemos fazer às cartas anónimas. Apesar daquela me elogiar abundantemente. Pensei cá para comigo que podia ser alguém a imitar o meu estilo de dizer certas coisas. Cada um é como é, e eu não fujo à regra.
Porém, agora que já sei quem a escreveu, imagine-se, um grande amigo, estou todo inchado, porque ser elogiado por um amigo, não é o mesmo que ser elogiado por um anónimo qualquer. Tendo isso em consideração, resolvi manifestar-lhe os meus agradecimentos pela gentileza mas, tinha de lho perguntar, quis saber porque raio de motivo não assinou a carta.
Surpreendentemente, disse com toda a lata, que estava a gozar comigo, pensando que eu ficaria muito mais vaidoso se a carta fosse anónima. Por esta é que eu não esperava. Afinal, tinha ali um amigo da onça, como tantos que toda a gente tem. Adiante.
Depois, pensando melhor, achei que os amigos são para as ocasiões e este, bom aproveitador de oportunidades, quis ver-me feliz e contente, ainda que com o seu gozo, sinal de que também ele estava feliz e contente por gozar comigo. Não sei como, mas a carta apareceu na caixa de correio de todos os meus amigos e conhecidos, o que me tornou num ídolo aos olhos de todos eles.
Um pouco mais tarde caí em mim e não me conformei com esta história da carta anónima que, afinal, tinha autor mais que conhecido e ainda mais que brincalhão. Quis ser honesto, porque eu já o era antes, e toca de informar toda a gente de que aquilo não eram elogios anónimos, mas sim um gozo bem identificado.
Caramba, o que é que eu fui fazer. Toda a gente pensou que era modéstia da minha parte logo, muito mais me elogiaram e rodearam de admiração e simpatia. O autor da carta quis desfazer o equívoco mas, incompreensivelmente, não foi levado a sério e teve de se conformar com a verdade da mentira transformada.
Esta é a história de uma carta anónima que se transformou na cruz da minha vida. Eu, que tanto gostava de não ser ninguém, acabar por ser conhecido através de uma carta anónima a dizer que eu era o que nunca fui, para mim não é uma alegria, nem uma felicidade, mas um calvário que me destruiu o sonho de ser feliz à minha maneira.
O meu amigo ex-anónimo, já disse que não se importava de trocar a situação dele pela minha situação, com vista a recolocar-me no anonimato da minha vida anterior. Mas, diz-me para eu descobrir uma maneira de se fazer acreditar por aqueles a quem enganou. Só me resta pensar que estamos lixados. Ele e eu.
Depois, ainda têm a lata de me vir dizer que a verdade vem sempre ao de cima. Como o azeite, acrescentam. E eu, desiludido, concluo, como o vinagre.