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afonsonunes

afonsonunes

24 Abr, 2009

Vamos a isso, já!

 

Acabei mesmo agora de esfregar as mãos, perante a possibilidade de, finalmente, termos uns momentos de excitação, no meio desta pasmaceira de casos e não casos, com que nos brindam diariamente os enchedores dos espaços informativos.
Pessoalmente já começava a estar farto de ouvir tantos recados de lá para cá e nem um recadinho de cá para lá. Pensava eu que isso era sinal de que estava tudo bem e que os recados eram uma maneira de entreter a curiosidade mórbida de certos observadores mais distraídos.
Afinal, quem andava distraído era eu. Mas agora vou vingar-me porque, a partir deste momento, vou estar particularmente atento a todos os recados que andarem para lá e para cá, na esperança de que, finalmente, venha a saber quem é que sabe enviar melhores recados, sobretudo, quem é que lhes dá melhor entoação de voz.
É que um recado não é uma coisa qualquer que se atire da boca para fora, assim do tipo de uma chalaça, com sorriso ou sem sorriso. Não, um recado, como não é dito cara a cara, tem de ter classe, tem de ter charme, tem de ter espírito, tem de impressionar quem recebe o recado, para que ele impressione quem o transmite e, finalmente, impressione mesmo, o destinatário. Do recado, obviamente.
Assim, sendo dois a trocar recados, já podem combinar a melhor maneira de os trocar, para não ocuparem tanto espaço na informação que, como se sabe, ao preço da publicidade, custaria mais que um dinheirão. Já agora, não percebo a razão porque não usam os telemóveis, supondo que ambos os têm.
É verdade que era preciso mudar de terminologia, pois mandar recados por telemóvel não soa lá muito bem. Mas podiam mandar mensagens, utilizando o tarifário que os estudantes escolhem, dentro dos seus magros orçamentos. O estado, se calhar, não se importava de suportar este agravamento da despesa, pois o recado, sendo grátis, é muito mais incómodo que a mensagem.
Nem tudo são vantagens, claro, pois quem não gostaria da troca, eram todos aqueles que movimentam os recados, aos quais transmitem aquele toque pessoal de bom gosto, criando um frenesim social de interesse por alguma coisa, no meio da apatia geral. Mas, de facto, uma mensagem por telemóvel, é muito mais discreta e com outro toque pessoal, além de permitir maior requinte de delicadeza, incluindo os tradicionais cumprimentos, ou até um abraço, para finalizar.
Agora volto ao princípio. A possibilidade de assistir a esta emoção de uma espécie de duelo, a este despique entre galos de capoeiras diferentes, habituados a galinhas diferentes, pode ser empolgante para quem, como eu, não gosta de salamaleques e beija mãos, de rotinas e de preconceitos que já tenham atingido o estado de poeirentas.
Por favor, mas mesmo por favor, não considerem isto um recado seja para quem for. Eu sei que nem seria preciso dizer isto, porque nem sequer tenho categoria para mandar um simples e pequeno recadinho, quanto mais um recado deste tamanho. Refiro-me ao número de palavras, claro. 
Mas, com toda a modéstia do mundo, volto a esfregar as mãos e a pensar com todo o entusiasmo, perante este desejo excitante que me leva a delirar: Vamos a isso, já!