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afonsonunes

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Se a memória não me atraiçoa foi o último recado de que me apercebi, logo no dia em que muita gente esperava, não só muitos e bons recados, mas até uma espécie de gravação GPS que mostrasse com todos os pormenores, o caminho a seguir.
A verdade é que, contrariando as expectativas gerais, parece que o contra-recado veio repor a normalidade tão desejada por uns, e tão indesejada por outros. No entanto, eu, que agora ando a pau com os recados, lá consegui descobrir um recadinho muito disfarçado, muito discreto, mas muito subtil, e muito genérico.
Não tem nada a ver com saúde nem com medicamentos pois, é genérico, no sentido de que foi dirigido a muita gente, e não apenas ao habitual destinatário. Também não fazia sentido, estar a mandar-lhe recados individuais, naquele dia e naquele momento, em que o tinha ali, quase por baixo do seu nariz.
Dizia o tal recadinho discreto, que não se devia andar a falar do passado. Confesso que a princípio não cheguei lá. Estranhei, lá isso estranhei, que um povo com uma história tão rica, não pudesse orgulhar-se dela, a ponto de não poder falar dela. Pareceu-me uma pequena crueldade, uma incompreensão até, senão mesmo uma violência histórica.
Então a nossa história não é o nosso passado? Então o nosso passado não é a nossa história? Porém, após uma pesquisa mental muito rápida, lá divisei um pouco de luz, que me levou a decifrar o tal recadinho. Com aquela margem de erro que todo o decifrador arrisca, mas o risco faz parte do acto de abrir a boca.
Toda a gente sabe que há muito quem se orgulhe das glórias que lhe atribuíram no passado. Mas também é sabido que, ao lado das glórias, moram sempre uns pecados que, mais tarde ou mais cedo, acabam por provocar umas sombras, sobretudo quando os gloriosos não querem admitir que as suas sombras também se projectaram para o futuro, condicionando a actuação daqueles a quem se pretende apontar caminhos.
Tem toda a lógica não querer que se fale do passado, pois há sempre a possibilidade de alguém se lembrar de confundir as glórias, com as sombras desses pecados longínquos e esquecidos, por quem tem a memória curta. E há muito quem tenha.
Falar do passado não deve ser um pesadelo, senão para quem sentir que contribuiu para que ele fosse mesmo pesado e sombrio. Aliás, não é difícil reconhecer, que o passado do país, por diversos motivos, nos últimos cento e tal anos, não foi muito produtivo para a sua população. É verdade que tivemos uma ou outra alegria, muitas esperanças em diversos momentos mas, ao fim e ao cabo, não fomos capazes de deixar definitivamente para trás o ferrete do nosso atraso endémico.
Era nisso que deviam pensar muitos dos nossos pretensos heróis. Provavelmente, muitos deles estiveram cheios de boas intenções, talvez até se tenham esforçado muito mas, há que reconhecê-lo, a frustração que nos atinge, não lhes pode dar a satisfação que por vezes manifestam. Basta comparar com o que se passou além das nossas fronteiras, em diversos períodos, em que outros trabalharam de maneira muito diferente.
É por isso que não podemos calar o passado, enquanto ele não servir de lição para o futuro, por muito que alguém o queira ignorar ou esquecer.