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afonsonunes

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27 Abr, 2009

Luisíadas

 

 
Luís Vens de Camiões é uma daquelas personalidades que eu admiro sem reservas, dentro e fora do panorama linguístico nacional. Porque ele é único na maneira como guia a palavra rumo ao objectivo que deseja atingir. A sua linguagem tem o gume de um bisturi computorizado que se move sem provocar dor, mas tem a certeza de que limpa o caminho por onde passa.
Não é que as minhas certezas sejam parecidas com as dele, o que seria petulância da minha parte, mas penso que a melhor maneira de seguir caminho, mesmo dentro de camiões, é falar claro e manter a pressão correcta nos pneus, além de uma outra pressão constante no volante, para que o rumo que se deseja não seja desvirtuado.
Também admiro aquele tipo de condução desinibida, provavelmente, cantarolando ou assobiando, sempre com um sorriso nos lábios, sem olhar à triste monotonia que ele julga ver à sua volta. Depois, gosta de manter a janela do camião aberta, suponho eu, para responder a qualquer incidente inesperado.
Aliás a experiência ensinou-lhe que, em caso de acidente grave, a janela é uma das saídas possíveis do camião, tanto em movimento, como quando se encontra já capotado. Ele sabe bem que tudo é possível, na estrada da vida, e está disposto a repetir experiências, mesmo as mais acidentadas.
Essa é uma das razões da minha admiração, como ainda agora pude confirmar ao ler textos da sua obra literária por excelência, publicada em capítulos mais ou menos regulares, a que eu próprio denominei de Luisíadas, da autoria desse incomparável Luíz Vens de Camiões.
É bem visível que ele anda de olhos, no plural, bem abertos, e não tem por hábito piscá-los a ninguém, como faz com os piscas dos camiões. Nem gosta de conduzir com os mínimos, mesmo quando a luz à sua volta ainda é razoável. Os camiões têm máximos é, precisamente, para serem usados, porque há sempre quem ande com falta de vistas.
Costuma ter um sexto sentido no que se refere aos acontecimentos que estão para vir. Diz ele que não há melhor maneira de consultar os astros que deitar a cabeça de fora da janela dos camiões, principalmente, a uma velocidade relativamente elevada, mas dentro da legalidade, que é coisa que ele muito preza.
Também aqui, estou em plena sintonia com ele. Não há melhor forma de prever o futuro que arejar as ideias com o vento a bater na fronte e a sacudir os cabelos, de quem ainda os tem, como é óbvio. Mas ele, ainda tem tudo. E não tem pejo de dizer que há muitos e muitas, que já não têm nada.
Talvez seguindo esta pista, Luís Vens de Camiões, transportou o pensamento do veículo para casa de uns amigos e ficou preocupadíssimo. Segundo revelações do Luisíadas, já aconselhou alguém a não se aproximar da janela, sem ver primeiro quem está escondido atrás do cortinado.
Também o admiro, porque ele não quer que se repita o empurrão que já sofreu. Ainda que a possível vítima seja quem o empurrou. A isto chama-se realmente ser de uma piedade sem limites e de uma grandeza de alma inigualável.