Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

05 Mai, 2009

Judith e Vitorinho

 

 
 
 
Vitorinho não é um Vítor em ponto pequeno, pois ele até já tem uma grande superfície desmatada no alto da cabeça, onde a prima Judith vai à procura de umas ideias a que ela acha uma graça que me faz rir, a mim, perdidamente. É que o riso dela é mesmo contagiante. E quando ele resolve rir-se também, é o fim.
É curioso que estes primos entre si, estão sempre de acordo, embora fosse de esperar que estivessem em permanente desacordo. Tão insólita sintonia talvez se deva ao facto de, nem o primo nem a prima, quererem estragar uma boa relação, uma óptima relação, diria eu, que não tenho nenhuma espécie de relação com qualquer deles. Sim, porque eu não sou primo de nenhum deles.
Dantes dizia-se que quanto mais prima, mais se arrima. Mas, ali, onde o destino os aproximou, não podem arrimar-se muito, porque há uma mesa que os separa e, providencialmente, eles nem sequer se podem levantar das suas cadeiras fixas. Contudo, eles bem esticam os pescoços para a frente, embora isso não sirva para mais que rirem-se com muito maior proximidade.
O primo Vitorinho nunca responde com palavras soltas, às palavras cruzadas da prima Judith, o que se compreende perfeitamente. É bem evidente que ambos já repararam que as suas vidas se cruzaram ali, e não admitem que alguém pense que as palavras soltas que queiram ver nas suas conversas, pudessem algum dia estragar-lhes o riso salutar que os anima, naquela espécie de namoro semanal.
A quem não quiser acreditar que isto é a pura das verdades, aconselha-se a comparação com outras conversas, com outros conversadores e a diferença será tão evidente, que o mais incrédulo observador, nem conhecerá aqueles rostos tão sisudos e de olhos tão abertos, que até o assustam, mesmo à distância abismal a que possa encontrar-se.
Sinceramente, é bonito ver e ouvir uma conversa tão animada e cheinha de boa disposição, num lugar onde, normalmente, só se vêem rostos fechados, olhos inquiridores e penetrantes, por vezes esbugalhados, em busca daquela verdade que nunca mais descobrem, nem arrancam, mesmo pela força da sua vontade indómita.
Nisso, os primos Vitorinho e Judith, são um caso sério de familiaridade e simpatia, coisas tão raras hoje em dia, bastando recordar o que por aí vai de jogos florais de uma primavera que já só tem trovoadas, onde o ribombar do trovão nos fura os ouvidos e nos cega os olhos com os seus clarões fulminantes.
Eu bem sei que há quem diga que o primo Vitorinho é um ‘bonzana’ e que a prima Judith é uma ‘aproveitadora’, depois de ser provocadora. Por mim, não entro nessa, pois o meu juízo vai para um par de jarras que muito podem contribuir para a ornamentação das salas de estar de cada um deles. Muito diferentes, é verdade, mas que lá vão arranjando uns bocadinhos para se rirem. Coisa mais difícil do que parece.
No entanto, já não me parece que, quanto mais primo, mais a ti me arrimo.