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afonsonunes

afonsonunes

06 Mai, 2009

A chucha e a papa

 

Ora agora é que as coisas estão a entrar nos eixos, ou não estivéssemos a regressar às origens, à pureza dos primeiros dias de vida, ao tempo em que manda mais a intuição que a boa ou a má razão.
E, como agora se diz a todo o momento, ninguém tem dúvidas, ainda que estejam em causa, coisas tão importantes como a enganadeira, que leva os pequeninos a ficarem caladinhos à espera que chegue o momento da verdadeira chucha, que é a mais que intuitiva maminha.
Há quem engane os filhos com a antiga boneca de pano contendo açúcar, outra modalidade de chucha ou chupeta, o que revela bem da diversidade de maneiras de enganar os inconscientes que, a bem ou a mal, lá têm de manter a boca tapada, como forma de não reclamarem, ainda que a barriguinha já esteja a dar horas.
Daí que para mim, o melhor termo para definir esta situação de, chupa que não deita nada, seja realmente a enganadeira, por ser de todos os nomes, o mais original e mais significativo, de enganar quem tem fome. Também aqui, ninguém tem dúvidas, de que tenho razão. Ou não fosse eu a dizê-lo.
Mas, do que ninguém tem dúvidas, é que começamos a enganar seres indefesos, logo a partir do momento em que nascem, como se estivéssemos a vingar-nos, de já termos sido enganados, e continuarmos a sê-lo ao longo da vida inteira.
Veja-se como agora, que ninguém tem dúvidas sobre nada, nos vêm oferecer chuchas e papas, julgando que ainda somos pequeninos, que ainda mamamos de olhos fechados, sem saber o que nos metem na boca. Quase sempre a eterna enganadeira.
Eles não têm dúvidas de que com papas e bolos se enganam os tolos. E nós não temos dúvidas, ninguém tem, claro, que, com mais enganadeira, menos chupeta, lá nos vão matando o vício de chuchar, ainda que a maminha esteja mais que seca.
Curioso é que haja mamões que embocam todo o tipo de chupeta. Se ela cai quando adormecem uns segundos que seja, fazem um berreiro dos diabos. Mas, se virem alguém chorar a seu lado, porque não chupa nada, consideram inaceitável que se faça tanto barulho, por causa de uma inaceitável enganadeira.
Por mim, não vejo grande diferença entre os que enganam e muitos dos que são enganados, ou não houvesse quem se deixe enganar, na esperança de que a boneca que os enganadores lhes metem na boca, traga muito açúcar. E então, sofregamente, eles mamam com satisfação e à chucha calada.
Ao tempo da mamada segue-se a época das papinhas, que têm a vantagem de serem feitas à medida do físico de quem as vai comer. Mais espessas e consistentes, para quem quer ser bolachudo e musculado, ou mais aguadas para quem prefere ser franzino e elegante. É à vontade do freguês.
Só não entendo o motivo porque tantos comilões se excitam tanto quando vêem alguém comer. De igual modo, não entendo quem tanto fala dos outros e não tolera que os outros falem de si. Devem ser teorias de enganadeira. Quem não gosta de papa, não deve pegar na colher.