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afonsonunes

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Ah, pois, também quero o meu estatuto e quanto antes, dado que estou a ser altamente prejudicado pelo facto de estar sujeito a leis aberrantes que não me deixam viver a vidinha que bem me apetece e a que tenho direito segundo a minha constituição física, por sinal, um pouco débil.
É que o meu estatuto é tão incompreensível como o daquele cidadão que roubou duas galinhas, e agora vê-se envolvido no estatuto dos polícias e no estatuto dos tribunais. Mas onde é que já se viu uma coisa destas, em que duas galinhas têm um estatuto muito mais favorável que o sujeito que se apaixonou por elas.
Eu não concebo que haja assim tantos estatutos, principalmente, se me não for dada a faculdade de ter também o meu. Como sou um cidadão cumpridor, entendo que devo ser eu a seleccionar os meus compromissos e os meus deveres para com os outros, e isso só pode acontecer se o meu estatuto for feito por mim.
Só assim poderei dizer que sou totalmente livre e independente, que só assim poderei pensar pela minha cabeça de forma isenta, sem que ninguém me pressione. Não, pressione, não, que isso agora está um perigo danado. Direi antes, sem que ninguém me empurre pela janela, que está na berra de há uns dias a esta parte.
Mas, afinal, o que é um estatuto? Não é nada por aí além, quando ele não serve para nada, como tantos que há por aí. Mas, ainda é menos, quando é um estatuto feito por outros, para me lixar a mim, quando convém a alguém.
É por isso que eu quero um estatuto que sirva só para mim. Aliás, não estou a pedir nada que outros não estejam fartos de pedir. Direi mesmo fartos de reclamar. Melhor ainda, que não estejam fartos de exigir.
Apesar de nunca ter exigido nada a ninguém, acho que se vê logo de caras que não sou nada exigente. Já me tem dado vontade de ir à televisão, dizer aos exigentes que exijam um estatuto para mim também, assim do género de eles não poderem sobrepor o estatuto deles, ao meu estatuto.
Tenho a certeza de que eles ficariam a ganhar muito com isso, pois eu seria menos um a tirar-lhes o sono, por infringir o estatuto deles. E se eles exigissem que todos os cidadãos tivessem cada um o seu estatuto, feito à sua medida e pelo seu próprio punho então, nunca mais havia dúvidas nem contestações de falta de independência e de excesso de empurrões, nem mesmo à beira de qualquer janela aberta.
Eu, por exemplo, poria no meu estatuto que ninguém poderia chatear-me por mandar as pessoas de que não gosto lá muito, sem ódio e com muito respeitinho, a dar uma curva das grandes, de forma que a perdesse logo de vista depois dos primeiros metros de percurso.
Não, não era uma maldade, não senhor. Era o primeiro artigo do meu estatuto.