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afonsonunes

afonsonunes

08 Mai, 2009

A grande verdade

 

Sou de opinião que todas as bocas são capazes de mandar cá para fora boas sentenças, ainda que nem todas gozem dessa faculdade com igual frequência, facilidade e capacidade. Isso quer dizer que, por entre muitas banalidades, ou até por entre muitas incoerências, pode sair uma ou outra verdade de se lhe tirar o chapéu.
Gente do povo menos instruída, ou gente erudita e sabedora, podem gerar frases lapidares, daquelas que não saem todos os dias, muito menos de todas as bocas. Vem isto a propósito de ter visto referido na comunicação social que o camarada Jerónimo disse alto e bom som que, ‘quando o povo quiser, as coisas mudam’. Espero que a vírgula esteja no sítio devido e que não esteja nenhuma letra a menos.
Se estiver alguma coisa a mais, espero que ele me perdoe, como eu lhe tenho perdoado muitas vezes, pelo que penso que ele devia acrescentar ao que diz. É que eu sou assim mesmo. Espero sempre mais do que vejo e do que oiço. Porque penso que não há coisa pior que dizer-se de menos, deixando dúvidas em aberto, que podiam e deviam ficar fechadas. Nada de confusões, fechadas, no sentido de completamente esclarecidas.
Mas, aquela frase, ‘quando o povo quiser, as coisas mudam’, é verdadeiramente lapidar. Podem dar-lhe a entoação que quiserem, podem dizer que é um desejo ou uma esperança, que é um apelo ou um desespero. Por mim, que sou um sonhador, direi apenas que é uma verdade insofismável.
Ou não fosse o povo quem mais ordena, não na rua, no estádio, na igreja ou no pavilhão, mas na urna onde mete o seu voto em silêncio, ficando à espera até que conheça o voto dos outros. À espera do voto de todo o povo afinal, que é esse que mais ordena e não aqueles que julgam que têm privilégios individuais, ou visões mais esclarecidas que os outros elementos desse mesmo povo. Até podem ter. Mas o seu voto pesa exactamente o mesmo que o voto de um ignorante.
‘Quando o povo quiser, as coisas mudam’. Bonito de ouvir, mas nem sempre fácil de compreender, quando se compara isto, com outras arrancadas que me parecem contradições, não apenas evidentes, mas completamente atentatórias da vontade real e manifesta do povo, como vontade colectiva.
Depois, fico com aquela sensação de que as coisas, aquelas coisas que mudam, são demasiado vagas e imprecisas para quem, principalmente, nesta quadra que precede a exposição da urna aberta, em que a clareza, não deve ficar-se pelas frases bonitas, de valor acrescentado, é certo, mas que não nos garantem mudança nenhuma.
Por mim, sonho com a mudança de muitas coisas, há muito tempo, mas os meus sonhos não mudam as coisas, nem mudam coisa nenhuma, se não houver muita gente a ter os mesmos sonhos que eu. Porque os meus sonhos não são uma condicionante dos sonhos do povo, e ainda bem, sabendo eu que há muito quem sonhe com outras coisas bem diferentes das minhas.
Entretanto, o sonho não morre, mesmo enquanto o povo não quiser pensar como eu.

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