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afonsonunes

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Hoje vou ser apenas a voz de alguém que desabafa comigo, partilhando toda a mágoa que o martiriza desde tenra idade, sabendo que nada mais pode fazer que isso: desabafar com quem o compreende, que mais não seja porque o ouve com atenção e lhe não mostra qualquer tipo de agressividade, como reacção ao mais simples dos seus desejos.
Sou o Hugo e gostava de ser um rapaz como aqueles poucos amigos que consigo ter. Que têm uma mãe que fala com eles com amor e carinho, e lhes deixa um espaço para viver as suas pequenas alegrias e tristezas, à sua maneira, ao sabor dos seus sentimentos e dos seus gostos.
Quando era muito novo, os meus pais separaram-se. Cresci num isolamento quase total, para que não pudesse ter contactos com o meu pai, para lá dos encontros estipulados pelo juiz, nem sempre cumpridos, contra a minha revolta e a do meu pai. Que tudo faz para que eu não odeie a minha mãe, para que ela não me martirize ainda mais.
Neste inferno de vida, a minha mãe quase todos os anos me tem mudado de estabelecimento de ensino, para que não crie amizades, para que perca no fim de cada ano, aquelas que consegui no ano anterior. Assim, perdi a vontade estudar e com isso, fui sendo castigado, cada vez mais, quase não podendo sair de casa.
De tudo, o que mais me custa é ser frequentemente afastado do meu pai, por motivos incompreensíveis, como perder a concentração nos estudos, ou habituar-me a que façam as minhas vontades. A tudo respondo com submissão total, mas ninguém imagina o que vai cá dentro.
A minha mãe voltou a casar pouco depois de se separar do meu pai. Teve uma filha com quem sempre me dei muito bem, como irmã que muito estimo. O meu pai voltou a casar há pouco tempo e, na casa dele, sou tratado como se fosse filho de ambos, com o amor e carinho que não sinto na casa da minha mãe, devido aos problemas que, desde o divórcio, criou ao meu pai, utilizando-me sempre para conseguir contrariá-lo.
Duas casas, dois modos de vida, na parte que me toca. A minha mãe comporta-se como se eu fosse seu enteado, no mau sentido, enquanto a minha madrasta (custa-me pronunciar esta palavra), se comporta como se eu fosse seu verdadeiro filho biológico. É triste ter de fazer comparações destas, mas é a pura realidade. Em casa da minha mãe não posso falar do meu pai, nem no que faço quando ali vou.
Há poucos dias o meu pai deu-me a alegria de ter mais uma irmã, que eu esperei ansiosamente durante a sua gestação. Ainda a vi só uma vez, mas tenho uma fotografia dela. Coloquei-a na mesa do meu quarto, onde passo quase todo o meu tempo, para lá das aulas.
Hoje fiz dezassete anos. A minha mãe descobriu a foto da minha nova irmã. Resultado: proibiu-me de ir a casa do meu pai no dia dos meus anos. Eu obedeço porque não sou violento. Será que a minha mãe não está a ser violenta para comigo?
E eu acrescento apenas: Adeus, Hugo. Parabéns pelos teus dezassete anos. Já és um homem. Continuaremos a falar, sempre que tu quiseres