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afonsonunes

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23 Mai, 2009

Cozinhado marinho

 

Por acaso até gosto de cozinhados, desde que contenham aqueles condimentos que a minha pituitária não rejeita liminarmente, caso da pimenta e do piri piri, precisamente, porque picam um pouquinho na língua. Parece-me que toda a gente compreende que é para isso que serve a língua.
E então aqueles cozinhados marinhos, assim denominados porque são confeccionados com aquilo a que alguns chamam erradamente frutos do mar. Um disparate completo, pois se o mar desse fruta, estávamos tramados. Já não nos basta a que vai por aí a estragar-se nos domingos à noite, com as árvores que a dão, a dar-nos lições de cozinhados divinos.
Porém, o cozinhado marinho, é uma descoberta que tem a particularidade de não incorporar nada vindo do mar. Convém esclarecer isto muito bem, para se não dizer que a receita mete água por todos os lados. E acrescento mais. Também não mete lagosta nem camarão, para desgosto dos apreciadores do bom marisco.
Que é um cozinhado, não tenho dúvidas, tanto mais que o pequeno Mário já mo confirmou sob palavra de honra. Posso garantir que ele sabe do que fala. Já tentei arrancar-lhe uns segredos desse cozinhado, mas ele não se descose mesmo nada. Nem sequer revela um simples condimento.
Cá para mim, começa por fazer-se um refogado normal, onde entram os habituais companheiros desse processo culinário. Nunca se deixa refogar muito, para que não queime nada nem ninguém, principalmente, com os pingos que saltam do tacho, quando o lume está muito forte. É por isso, que se recomenda o lume brando, muito brando mesmo.
O pequeno Mário nunca me falou do processo do cozinhado através do assado. Nem no forno, nem na brasa. Talvez porque esses são processos muito rápidos e de altas temperaturas que não se coadunam com o tipo de cozinhado em questão. Mas, esta é apenas uma dedução minha, baseada na lógica do cozinhado lento, muito lento.
Mas, o que mais me intriga, é o facto de quase ninguém conhecer este cozinhado, parecendo até que há quem tenha medo de falar nele, mesmo aquelas pessoas que sabem bastante de culinária, e de muitas outras coisas, evidentemente, e que sempre mostraram que não têm medo de nada nem de ninguém. E acho muito bem que não tenham. Mas no que toca a este cozinhado, não sei, não.
Já é a segunda vez que oiço falar dele, mas não consigo obter a receita completa, apesar de já ter folheado muitos livros de culinária de todos os tamanhos e de todos os preços. Até já pensei que os bons, aqueles que trazem todas as receitas, estivessem esgotados. Mas, qual quê.
Não me sai da ideia que deve haver um segredo no meio deste cozinhado, que ninguém consegue desvendar, uma vez que não se trata de um frito, de um assado, ou de um refogado. Até já me passou pela ideia que é possível que se trate de um ‘refugado’.