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afonsonunes

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04 Jun, 2009

A frase do dia

 

Estou farto de bater com a cabeça na parede e não há meio de me sair uma daquelas frases que possa dar-me a sensação de que cumpri o meu dever de hoje. Já pensei em peixe fresco, em peixe salgado, mas não adianta pensar. Quanto mais penso, mais estúpido me sinto.
Em contrapartida, quando me sinto possuído por uma estranha estupidez, descubro logo, mas mesmo logo, uma tirada de bradar aos céus, uma daquelas frases que parece que têm música que aparenta entrar facilmente no ouvido, só que já verifiquei a grande velocidade com que é devolvida à origem, porque a estupidez acaba sempre por ser devolvida ao remetente.
Também reconheço que tenho uma estranha tendência para arranjar frases do dia, à base de peixe. Sim, eu sei que o peixe é mais leve que a carne. Mas, a verdade é que as minhas frases do dia, tendo como base o peixe, devem sofrer de falta de frescura, pois já houve quem me dissesse que cheiravam a fénico.
Sinceramente, eu só quero arranjar uma frase do dia, todos os dias. Quero lá saber se o meu peixe cheira a fénico ou não. Eu nem sei o que isso é. Só sei que deve ser um cheiro que só incomoda gente com cheiro a mais, e a minha frase do dia não é para quem anda a meter o nariz onde não é chamado.
No entanto, insisto em basear a minha frase do dia em peixe fresco, ou então que pareça fresco, pois nem toda a gente repara para esses ínfimos pormenores. A mim, basta-me dizer que é linguado e, tenho a certeza, toda a gente acredita que é mesmo linguado, ainda que lhe apresente uma frase do dia a cheirar a carapau seco ao sol, na praia da Nazaré. Que é bem bom, diz quem gosta. Só que não é linguado.
A minha frase do dia, feita à base de peixe fresco, tem como destinatário todo o povo português, embora se refira sempre ao mesmo pescador, a grande fonte de inspiração da minha frase do dia. Esse pescador já disse que não me vendia peixe nenhum. Nem fresco nem salgado, nem a cheirar a fénico, nem a cheirar a carne estrugida.
Contudo, eu não prescindo de ter a minha frase do dia, pois confio inteiramente que o povo português já não possa passar sem o cheiro do peixe que lhes sirvo, através da minha frase do dia, tão fresquinha como a manteiga rançosa. Tão rançosa como o pescador que anda por aí a dizer que a minha frase do dia já consegue ser menos irritante que a minha voz. Logo eu, que tenho uma voz tão fina.
Tenho a certeza que a minha voz e a minha frase do dia, só são irritantes para esse pescador que diz que não me fornece peixe nenhum, logo, que a minha frase do dia, só pode ser de peixe que eu arranjo em águas turvas.
E eu quero lá saber de onde vem o meu peixe. O que eu quero é ter diariamente a minha frase do dia, para gáudio do povo português que já garantiu que me vai dar uma grande alegria, no dia em que já possa prescindir da minha frase do dia.
E até já me disseram em segredo, que têm preparada uma frase para fim de festa, que vai constituir um sucesso tão grande como já o são as minhas frases do dia. Essa frase dirá apenas: vai, vai, que nós por cá ficamos bem.      
Ainda dizem que o povo é ingrato.