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afonsonunes

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É vulgar ouvir dizer que Portugal e os portugueses estão doentes. Há mesmo vozes que gritam que o país e os seus habitantes estão muito mal. O mais curioso é que a grande maioria daqueles que se fazem ouvir, são os bem instalados na vida e, por isso, não podendo queixar-se da vida que levam, queixam-se em nome dos mais desfavorecidos que, ao que se sabe, não passaram procuração a ninguém para falarem em nome deles.
Outros, mais realistas, já substituíram os mais desfavorecidos pela classe média, onde naturalmente se incluem, pois hoje todos os ricos têm vergonha de dizer que o são. Até porque alguém pode lembrar-se de ir ver quanto pagam de impostos e concluir que, afinal, eles são, na verdade, os novos pobrezinhos.
Pois bem, o que é que qualquer português, com óculos ou sem óculos, pode ver sem grande esforço.
Os combustíveis estão caros, mas os carros parecem ser cada vez mais, sendo quase como acertar na lotaria, encontrar um lugar para estacionar em qualquer cidade do país.
Em qualquer feriado junto ao fim de semana, o litoral é invadido por multidões que fazem das praias formigueiros, os hotéis ficam cheios, as esplanadas e os restaurantes transbordam, os mariscos e os vinhos caros sobressaem nas mesas bem decoradas e os rostos de quem à volta delas se senta, nem se lembra de que o país está mal.
Os grandes e os pequenos supermercados vêem passar pelas caixas, carrinhos a transbordar de mercadorias onde abundam produtos caros, em detrimento dos produtos economicamente mais acessíveis.
Casas, carros, propriedades ou artigos de qualquer espécie, estão sempre vendidos, se forem de preço muito elevado.
Diz-se que já não há ricos, ou que eles são muito poucos. Diz-se que a classe média está em vias de extinção e já não tem poder de compra. Até já se diz que ela deixa de comer para pagar a prestação da casa. Bom, conclui-se então, ironicamente, por exclusão de partes que, afinal, quem faz vida de rico são os pobres. Na verdade, dizer isto é um sacrilégio. Que me desculpem os pobres a sério.
Mas, a grande verdade é que Portugal está transformado num grande hospital, onde há muitos doentes que, em lugar de procurarem curar-se e darem ânimo os seus semelhantes, agridem-nos a toda a hora com os seus acessos de fúria e de raiva, porque vêem neles um obstáculo aos seus interesses egoístas.
É por isso que às nossas casas chega, com muitos disfarces, o ruído daquela algazarra hospitalar infernal, que nos aliena e nos põe doentes também.
É que, cá fora, ouve-se a tosse, mas não se vêem os micróbios.