Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

23 Ago, 2008

Detesto-a

 

Nunca simpatizei com ela. Mais, sempre tive a sensação que ela me causava um enorme mal estar interior, quando a sentia por perto, sempre de braço dado com outras pessoas.
Por causa dela, tive grandes divergências com amigos ou simples conhecidos de ocasião, quando as conversas permitiam que ela se intrometesse, principalmente, quando essa intromissão se fazia de forma descarada e a roçar os limites da minha tolerância.
Sim, porque ser tolerante é um dever que me impõe a qualidade de cidadão compreensivo, tendo plena convicção de que vivo numa sociedade onde não há seres perfeitos.
Mas, tal não significa que eu seja um ser indiferente às arremetidas dela, pondo em causa a minha capacidade de compreesão e respeito pelos meus mais elementares princípios de independência moral e intelectual.
Ela, chama-se hipocrisia. Sim, com letra minúscula porque, para mim, ela é tão grande, em tantas ocasiões, que me apetece tratá-la em ordem inversa ao seu tamanho.
Em boa verdade, eu não posso com ela, nem com todas as pessoas que lhe dão guarida e querem fazer dela a bandeira dos seus sucessos e da sua mania das grandezas.
Chego a pensar se essas pessoas estão convencidas que também eu ando de braço dado com ela, tal a naturalidade que parecem demonstrar quando a têm nos seus.
Sim, porque ela tem essa particularidade de aceitar estar nos braços de muita gente ao mesmo tempo, desde que isso lhe seja permitido.
Com ela, tudo me parece falso, desde o mais simples gesto, querendo ilustrar palavras breves, até à exuberância do espectáculo dos braços abertos e da voz forte, que não esconde a fraqueza dos argumentos e das ideias. Tudo parece grande e grandioso, pois o mundo do faz de conta é manifestado através de virtudes ou sentimentos que nunca passaram de pérfidas imaginações de mentes doentias, povoadas de vícios, que abafaram tudo o que de bom nelas pudesse ter existido.
 Mas, em boa verdade, tudo o que pretendem mostrar é, na realidade, tudo aquilo que não possuem.
A hipocrisia, não passa duma mentira, duma falsidade, ainda que encobertas em sentimentos de piedade e de bom senso, com os quais pretendem atingir os seus desígnios, penetrando suavemente em espíritos mais receptivos, ou menos preparados, nem sempre discernindo a tempo de detectar essas ofensivas dissimuladas.
Ela, a hipocrisia, de um modo geral, é doce e delicada, mas não passa de um beijo envenenado, ou de uma promessa de amor que se transforma rapidamente numa agressão violenta, onde o ódio aparece com a cara destapada.
No fundo, a hipocrisia, é a arte de fingir bem, é o engano disfarçado de conselheiro amigo, é a virtude que tem o vício do fingimento e da velhacaria.
Enfim, a hipocrisia é, realmente, um vício perigoso.
É essa a razão porque eu não gosto dela.
É por isso que eu a detesto tanto.