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afonsonunes

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12 Jun, 2009

Eu também quero

 

Em boa verdade eu não quero nada, porque já é tanta gente a querer, que não iria sobrar nada para mim, mesmo que eu quisesse. Quando muito, não tenho alternativa à sublime vontade de quem me manda pagar tudo aquilo que os outros querem. E, quando os outros querem, abro um largo sorriso, meto a mão no bolso e pago.
Quem me veio com essa conversa de, eu também quero, foi a minha vizinha que, ao ver-me aproximar de casa, ficou à minha espera. Desconfiei logo que ia receber uma lição de economia doméstica, no seguimento de outras, que já faziam de mim, um apetrechado licenciado pela universidade da porta da minha residência.
Desta vez, começou por me lembrar que tinha todo o direito a ser ressarcida dos cinco contos de reis que tinha encontrado dentro do colchão, e dos quais se esquecera completamente. Foi mesmo por acaso que lá fui meter a mão, disse-me ela.
Aconselhei-a a ir ao Banco de Portugal. Aí já eu fui, replicou com nervosismo. Afinal, os cinco continhos estavam em moedas. Ela não compreendia a razão porque o banco não deu pela falta daquelas moedas todas, durante largos anos, com a validade perdida, logo, tinha de lhe dar o dinheirinho de volta, em euros.
Oh vizinha, isso agora é muito complicado, disse-lhe eu a medo. Complicado, uma ova! Então, o Banco de Portugal não faz o que deve, tem de dar dinheiro a todos os prejudicados, e a mim, nada? Não, se tem de dar o dinheiro aos clientes de todos os bancos que não o têm, também tem de me dar o meu.
Oh vizinha, mas o seu colchão não é um banco. E lá está o vizinho a torcer as coisas. Até parece que ainda não percebeu que o meu colchão é mais seguro que um banco. Eu não peço nada que voou. Eu só peço a troca do velho pelo novo, percebe? É muito diferente. O banco não perde nada. Nadinha mesmo.
Não tive outro remédio senão baixar as orelhas mais um bocadinho, dizendo que ela tinha todo o direito de pedir e esperar pela resposta. Qual, quê! Replicou ela furiosa. Eu não peço, eu exijo. E se me começarem a dar música, vou ter com aqueles que agora vão lá para a Europa, esses que sabem bem das maroscas do Banco de Portugal, e depois logo vemos se não me vêm ainda pedir desculpa.
Oh vizinha, não se esqueça de exigir também os juros dessa massinha. Tem toda a razão, vizinho. Ainda não me tinha lembrado disso. E olhe que é mesmo muito dinheiro. Se me pagarem juros iguais aos que recebiam os do banco particular, faça-lhe as contas.
E depois de coçar a cabeça por uns instantes, prosseguiu. Espere aí vizinho. Porque será que os tais da Europa não disseram nada sobre isso? É estranho. Então o estado diz que não lhes dá o dinheiro, e eles calaram-se?
Pois é, vizinha. Isso quer dizer que, para esses deputados europeus, o estado não fez bem, nem fez mal, pois não apoiaram, nem condenaram. Olhe as suas moedas, vizinha.
Não, isto não fica assim, vizinho. Eu já vi escrito em qualquer lado que o estado dá milhões à banca. Logo, eu também quero.