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afonsonunes

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18 Jun, 2009

Misericórdia

 

Quem havia de dizer que misericórdia podia, antigamente, ser o nome de um punhal que tirava a vida a um cavaleiro derrotado. Talvez porque esse punhal tinha por função dar o golpe final, o golpe de misericórdia, ao apeado pela força das armas. Esta não me passava pela cabeça, por mais que a palavra misericórdia me tenha já dado que pensar muitas vezes, mas por motivos bem diferentes.
Misericórdia é o que pedem, em última instância, todos aqueles a quem a vida e os homens recusaram tudo. Pedem socorro desesperadamente, pedem compaixão e piedade pela desgraça que se abateu sobre as suas vidas. Nem sempre encontram resposta para as suas necessidades. Nem sempre o seu grito de misericórdia encontra eco no lugar devido ou, no mínimo, o mais esperado.
Misericórdia é nome de instituição de caridade. De onde se espera sempre comiseração pela desgraça alheia. Onde cada vez mais se acolhe quem menos requisitos reúne para o seu acolhimento. Quase sempre em prejuízo de quem não encontra a alternativa que outros podiam e deviam procurar, para dar lugar aos verdadeiros gritos de misericórdia.
Já lá vai o tempo em que a misericórdia era feita por religiosos e religiosas, sem vencimento, pelo prazer e devoção de fazer o bem, praticando a caridade desinteressada, tratando toda a gente com carinho e a melhor atenção, em instituições tão sóbrias como os pobres que acolhiam.
Já lá vai o tempo em que não era necessário o estado pagar a assistência da misericórdia, sem que os assistidos tivessem de pagar bem para serem recebidos, sem que os não pagantes ficassem em intermináveis filas de espera, que quase só vão diminuindo pelos nomes riscados depois da sua morte.
A misericórdia não se praticará em todo o lado da mesma maneira, mas hoje é muito mais fácil e realista falar de negócio, de interesses múltiplos, de uma casta de misericordiosos que não querem reforma, que se tornaram vitalícios, que não sabem, nem querem saber, o que se passa nas camas, para lá das portas dos seus gabinetes.
Criaram grandes empresas, com muita gente armazenada, sujeita a alimentação que não tem em conta a saúde de cada um, que não garante a mínima assistência a pessoas em risco, que não garante sequer uma vigilância razoável, principalmente, durante a noite, em que toda a gente, com saúde ou sem ela, fica entregue a si própria.
Há tantas histórias tristes que nunca serão contadas, porque os seus protagonistas apenas desabafam com quem sabem que não lhes comprometem o futuro. Não podem gritar por misericórdia, porque nem Deus os ouvirá, quanto mais os misericordiosos que têm outra espécie de misericórdia no pensamento.
Tanta gente que pagou antes, que paga depois, e que o estado volta a pagar, se vê na triste situação de esperar pacientemente pelo fim dos seus dias, quantas vezes com a revolta entranhada, abafada pelo silêncio que levarão para o túmulo. 
Misericórdia, meu Deus!