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afonsonunes

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Parece que o país anda a dormir mal. Ou talvez eu esteja a julgar o país pelo que se passa comigo próprio. É verdade que ando a dormir pouco, por isso é que julgo que ando a dormir mal. Mas, não é bem a mesma coisa, embora muitas vezes seja mesmo.
O mal do país é dormir muito e isso tem como consequência sonhar demais. Vistas as coisas por outro prisma, por exemplo, pelo lado dos dorminhocos, dormir muito é uma maravilha. Há lá maior bem, que passar o dia no ripanço de umas boas sonecas, intervaladas com umas cervejinhas frescas e uns nacos de qualquer coisa a acompanhar. Se todos estes intervalos forem acompanhados de uma boa conversa, então, aí temos o paraíso.
Depois, não há nada melhor que sonhar alto, ainda que de vez em quando se acorde estremunhado e a esfregar os olhos até ficarem vermelhos. Não faz mal porque isso passa depressa e, entretanto, houve alguma felicidade, hoje em dia quase só possível no mundo dos sonhos. Como facilmente se depreende, continuo a referir-me aos dorminhocos, como é óbvio.
Pois, também há quem passe a vida, melhor, os dias e as noites, a sonhar com ladrões. Ia a dizer que isso é mau mas, quem sabe, cada um é feliz à sua maneira e não sou eu que quero, nem tenho o direito de querer, mudar os sonhos de cada um.
No que me toca, há noites em que durmo realmente pouco, não porque esteja a sonhar, ainda que acordado, que é uma das muitas maneiras de sonhar, mas porque tenho esta doença que me tira o sono, ao ter de inventar umas tantas coisas para esta tarefa de conversar com o computador.
Bom conversador este, que me dá toda a prioridade na conversa, que não me interrompe, que não me critica, que ouve sempre com muita atenção, tudo o que eu tenho para lhe dizer. Mas avisa-me sempre que escrevo aquilo que, lá na infalível memória dele, não tem lugar, nem consta sequer do seu palavreado.
Quero crer que há muita gente como eu, que perde o sono pelos mesmos motivos mas, vou mais longe, também quero crer que nem todos os computadores são tão respeitados como o meu. Estou convicto que muitos deles, não se livrarão de umas marretadas nas teclas, com dedos nervosos e agressivos, como se estivessem a vingar-se de quem têm no pensamento, no acto da conversa computorizada.
É fácil imaginar que estes computadores não vão ultrapassar o prazo de garantia, para mais irritação dos seus utilizadores. Tão pouco estes utilizadores, vão ter um sono tranquilo e, provavelmente, sonhos felizes, difíceis de adquirir em noites de tormenta imaginativa, ou em dias em que a escuridão aparece logo de manhã, mesmo a seguir ao raiar da alvorada.
Por hoje, parece que já cumpri a minha tarefa. Por isso, vou dormir tranquilo, o que nem sempre acontece.  
Daí que só pense e deseje, boa noite e bons sonhos.