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afonsonunes

afonsonunes

23 Jun, 2009

Gado ou gente

 

É difícil avaliar quando uma determinada situação é mais deprimente que outra, se ambas forem igualmente vergonhosas para quem se considera civilizado e tem o seu pedaço de dignidade ainda activo.
Vem isto a propósito de como se deslocam os elementos das claques dos clubes de futebol para os estádios onde actuam esses clubes e onde nos envergonham as respectivas claques.
Essas deslocações fazem-me lembrar os bardos que acolhem os rebanhos de ovelhas e de cabras durante a noite. Só que os bardos estão fixos e servem para o gado dormir, se acaso não for incomodado por uma alcateia de lobos famintos. Os furibundos adeptos são rodeados de agentes da autoridade super protegidos por viseiras e armados de bastões compridos, mais parecendo o exército de D. Afonso Henriques na era das conquistas aos mouros.
Vão, portanto, metidos num autêntico bardo móvel, fechado logo que saem dos autocarros até serem metidos nos seus lugares privativos no estádio. A autoridade parece que chama ao bardo, caixa de segurança, mas o termo não é apropriado, visto que essa caixa de segura não tem nada.
Aliás, as autoridades acompanham os autocarros das claques desde as cidades de origem, por vezes durante muitas centenas de quilómetros, para tentarem evitar os distúrbios e as pilhagens em todos os locais onde fazem paragens.
O regresso é, forçosamente, marcado pelo delírio da vitória ou pelo desespero da derrota que, em qualquer dos casos, aumenta em larga escala o vandalismo, a raiva e a selvajaria.
As autoridades, que tantas vezes são tão severas a reprimir cidadãos individuais ou de pequenos grupos, não tentam sequer meter as claques na ordem, talvez porque receiem, e com alguma razão, pela sua integridade física. E, assim os vândalos, têm toda a liberdade para darem largas aos seus heroísmos, aos seus rancores e às suas frustrações.
Mas, sendo tão amantes da sua espécie de liberdade, aceitam serem tratados como gado miúdo enjaulado no bardo ou na caixa da polícia, só porque são muitos e, assim, podem berrar como hordas de selvagens e intimidar as autoridades que os acompanham.
É, na verdade deprimente, mas eles não pensam nisso. Aliás, muito mais deprimente é o facto de não serem respeitados os direitos de quem não tem nada a ver com espectáculos indecorosos, com agressões que provocam ferimentos e medos, que levam quem pagou o seu bilhete, a fugir do estádio sem ver o jogo que queria ver. É claro que os desordeiros não pensam nisso.
Depois, é ver o rol de acusações que surgem de todos aqueles que podiam e deviam ter evitado todos esses males porque, para eles, a culpa é sempre dos outros.
Esquecem que eles são os pastores responsáveis pelos bardos onde albergam o gado miúdo, que muitas vezes se transforma em autênticas alcateias de lobos, que deviam estar bem longe da cidade, metidos na selva, onde nem os cães de fila lhes pudessem seguir o rasto pelo cheiro.
Como isso não acontece, parece que os cidadãos pacíficos já pensaram pedir a quem de direito, que os cães de certas raças, que atacam e matam gente indefesa, sejam postos à disposição das autoridades que formam os redis, ou bardos, ou caixas de insegurança, para que possam, definitivamente, dominar as feras selvagens e irracionais, com outras feras ainda mais sangrentas.
É evidente que ninguém autorizaria uma barbaridade dessas mas, uma vez que também é uma barbaridade deixar as coisas como estão, ponham os clubes na ordem, acabando pura e simplesmente com as claques organizadas, que apenas organizam a violência e espalham o terror por onde passam.
Quem quer ir ao futebol, que compre o seu bilhete nas bilheteiras e vá. Há muitos anos atrás não havia claques em bando ou em rebanho. Havia adeptos individuais que iam à festa de um desafio de futebol, pois era esse o espírito com que saíam de casa, com bandeiras e roupas coloridas, sempre alegres e respeitadores, sem polícias atrás e à frente, livres de escolherem as ruas por onde queriam passar. Neste caso, era bom voltar ao antigamente, não era?
Também os diversos incendiários da bola precisam de regras, a começar pelos dirigentes dos clubes e todos os falantes ou escrivões que não se cansam de inventar lérias para vender o seu produto, normalmente, rasca.
Finalmente, é urgente que os órgãos directivos e de poder, deixem de se movimentar como lóbis, receando que a força do futebol os esmague e os atire borda fora.
Ao contrário, eles, presidentes daquelas coisas todas, com os governantes à cabeça, devem ter força, vontade e determinação para correr com todos aqueles que não merecem mais que um forte pontapé no rabo, obrigando-os a ir jogar descalços para uma qualquer lixeira vulgar.
 Depois, em paz, já podemos ir ao estádio.