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afonsonunes

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É verdade que a minha vida mudou completamente desde que me disseram que era excelente manter sempre os braços no ar, com aquela atitude de quem sabe perfeitamente que os braços servem, essencialmente, para mostrar aquilo que sabemos fazer e, pelo contrário, demonstrar que há coisas que não sabemos, nem nunca poderemos fazer, sem os braços na devida e elevada posição.
Sim, a posição dos braços não é conversa fiada de quem sabe o que é trabalho, de quem nunca soube o que isso é, ou de quem gosta muito de ver trabalhar os outros e, melhor ainda, de quem manda trabalhar os seus mandados.
Sempre que posso, gosto muito de andar na rua, assim do tipo de fiscal à paisana, sem bloco de notas e sem televisão atrás, parecendo aquilo que não sou, porque na realidade apenas sou um curioso e, algumas vezes, um modesto trabalhador, que também gosta de ter os seus momentos de sorna.
Agora, já há uma coisa de que me não esqueço. Sim, como muito bem já aprendi, os braços têm de estar sempre para cima. E não me venham cá dizer, com aquele ar de sabedoria que eu conheço de ginjeira que, para trabalhar, também é preciso baixar os braços de vez em quando.
Trabalhar de braços para baixo é crime de lesa pátria, que só determinados malandros devidamente identificados costumam praticar, sem que as autoridades incompetentes lhes apliquem a respectiva tarifa dos braços caídos, que só podem trabalhar com eles no ar, do tipo de votação dos tempos que já lá vão.
Portanto, nos meus momentos de rua, nunca vejo gente que tenha o descaramento de baixar os braços. Acima de tudo, aprecio o sentido disciplinado e cumpridor de uns avisos profusamente distribuídos pelas ruas que eu percorro, entusiasmado com tanto sentido patriótico, com a plena noção de que, realmente, o país está mudado.
Atenção, braços sempre no ar, nem que se veja no chão uma nota de toldar a vista. Deixá-la estar até que um desses párias da sociedade, habituado às facilidades de ter os bolsos cheios à custa de baixar e levantar os braços, mesmo que diga que isso é trabalho, não resista a baixar-se, de alto a baixo, transgredindo todas as regras dos braços sempre no ar.
É na verdade que estão mesmo todas as virtudes. Por isso, não tenho dificuldade em reconhecer que, afinal, não era assim tão difícil meter o país dentro dos carris, ainda que sejam os carris que os comboios regionais reformados foram deixando meio escondidos pela vegetação que já os ocultava.
Só espero que ninguém se lembre de baixar os braços a cortar essa vegetação daninha, pois isso seria um regresso ao passado, que tanta complicação nos trouxe. O futuro espera por nós, mas de braços bem levantados em direcção à nossa salvação.
Por mim, sinto que a minha vida já mudou imenso, por causa dos meus braços.