Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

01 Jul, 2009

Rugas a mais

 

A nossa democracia é jovem demais para ter rugas no rosto, daquelas rugas que transmitem uma imagem de que o tempo já levou muito do que havia para dar. Ora, a juventude não joga com as rugas logo, qualquer coisa aqui não bate certo. Ou aquela já não é tão jovem como se diz, ou estas apareceram tão precocemente que denunciam qualquer anormalidade funcional.
Objectivamente, uma democracia de trinta e poucos anos tem, necessariamente, de ser considerada jovem. Tão jovem que até se lhe perdoam muitas leviandades, algumas delas bem dispendiosas, principalmente, para os bolsos menos guarnecidos. Dizem que é próprio da idade.
Também as rugas são próprias da idade, embora elas não apareçam em rigorosa consonância com ela. Quer isto dizer que pode não ser velho quem tem rugas, nem ser novo quem as não tem.
Tal como o rosto das pessoas, a democracia pode não ter sinais visíveis de idade avançada, mas ter sinais interiores de que há rugas abundantes no pensamento, que indiciam uma certa deterioração da sua qualidade.
Há gente velha com ideias novas e há gente nova com ideias velhas. Não é por isso que a democracia rejuvenesce ou envelhece, por ser praticada por mais gente velha, ou menos gente nova. Porém, as experiências serão naturalmente diferentes logo, as leviandades terão tendência a ser comparadas com as rugosidades da mente.
Todas as comparações são potencialmente perigosas. A nossa jovem democracia tem sofrido muitos contratempos causados por teimosas comparações entre gostos e contra gostos, entre gente com ideias e gente idiota, entre rostos cheios de rugas e pensamentos repletos de rugosidades, entre caras sem pêlos e caras mais ou menos barbadas.
Toda esta gente de contradições tem de existir, porque ela faz parte do país e do mundo e, entre ela, estamos nós todos. Estão todos aqueles que falam de mais e fazem de menos, e ainda todos aqueles que não fazem nada, para além de estragarem aquilo que alguns fazem de bom.
O país e o mundo estão numa fase de contacto entre o fazer e o destruir, entre a conversa e a obra, entre a realidade e o imaginário. Mas, sobretudo, entre a seriedade e a manha, entre o rigor das palavras e a truculência das frases feitas.
Caras lisas ou enrugadas, tanto faz, desde que não nos assustem com o seu excesso de pó de arroz, ou o seu excesso de rugas provenientes de rostos permanentemente crispados.
Assim, receio bem que o país, ele próprio, acabe por ficar demasiado cedo, com rugas a mais, o que pode não ser sinal de sensatez.