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afonsonunes

afonsonunes

03 Jul, 2009

Não compreendo

 

No país da democracia mais avançada do mundo, que não digo qual é, pode-se chamar todos os nomes a toda a gente, que isso é uma manifestação e fruição de liberdade plena, que não pode ter condicionantes, seja lá de que natureza for.
Nesse mesmo país, podem meter-se as maiores galgas, ainda que bem maiores que a honra de quem as profere, que não tem problema nenhum, pois a defesa da honra só se pratica na sala da democracia e apenas com a finalidade de proporcionar umas graçolas e umas risadas para descontrair.
Nesse mesmo país, há apenas umas ligeiras excepções que não podem ser esquecidas. Trata-se dos membros do governo que, por motivos mais que justificados e justos, não podem usar da liberdade que todos os outros usam.
A própria sala da democracia só permite liberdade total aos deputados, sem excepção mas, ai de um membro do governo que use a mesma liberdade para com um deputado. Está lixado, quando não, linchado, antes de pedir desculpa, até às próprias bancadas, de boa madeira, mas extremamente sensíveis e delicadas, ou não assentassem nelas, altos rabos da ‘rabugência’ nacional.
Ainda nesse país, um ministro, julgando fintar um deputado que usava da sua habitual liberdade de expressão, ergueu dois indicadores à altura das fontes, precisamente, porque não podia usar da palavra no mesmo tom do seu interlocutor. Quis fintar, acabou fintado.
Tenho muito orgulho do meu país, mas não tenho orgulho nenhum de assistir, mesmo pela televisão, a cenas de sujeitos que não são do meu país, nem deviam sequer ser autorizados a uma estadia turística do tipo de escapadela.
Para mim, tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica ao portão. E isso é que ainda não ouvi ninguém dizer. Já alguém se preocupou com a provocação? Já alguém perguntou a si próprio se gosta de ser insultado? Já alguém pensou que quem não se sente não é filho de boa gente?
Pois bem. Dantes, no tempo em que os animais falavam, esses problemas resolviam-se à ‘cachaporrada’ entre os dois animais desentendidos. E não havia bancadas. Agora, não. Um vai para o olho da rua, enquanto o outro, promovido a herói nacional, fica sentado a coçar-se na cómoda cadeira da bancada dourada. Talvez até tenha direito a uma lápide para perpetuar a memória de tão histórico acontecimento. Talvez até haja uma cerimónia anual para lembrar tão grata efeméride.
Ainda bem que no país a que me orgulho de pertencer, não há animais do tempo da cachaporrada mas, parece-me que era preferível que certos homens resolvessem os seus problemas de instintos primários, em locais privados e apenas entre eles.
Mas, isto não foi um problema fortuito, entre dois… Naquele local e àquela hora, muitos outros tinham exactamente o mesmo estado de espírito. Só que não optaram pelo gesto. Preferiram a linguagem, que nem sempre foi menos limpa que o tal gesto. A diferença está na cabeça toda e não apenas na língua.