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afonsonunes

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Isso era quando o pão era cosido naqueles fornos aquecidos a lenha. Agora já não tinha graça nenhuma, porque é tudo feito em série e já nem os padeiros devem saber como se faz o pão de princípio até ao fim. Eles sabem que os fornos eléctricos aquecem depressa e que a massa do pão sai das máquinas onde entrou farinha, água e não sei se mais qualquer coisa.
Depois, enche-se o forno, que se esvazia uns tantos minutos depois. Ora, se isto de trabalhar assim, é ser padeiro, então vou ali e já volto. Cá para mim, ser padeiro era ter uma ferramenta constituída por uma pá de madeira com um grande cabo, que servia para pôr ou tirar um pão de cada vez, de qualquer recanto do forno.
Isso é que me fascinava naquela profissão escaldante. Uma ferramenta daquelas dava para muita coisa, segundo a minha imaginação, nem sempre muito lógica, nem tão pouco, suficientemente bem-intencionada. Sim, porque as boas intenções não apareceram só agora, com esta geração que nunca viu o padeiro.
Mas eu vi muitos padeiros de pá comprida na mão. E compreendi sempre que a pá também podia servir para tratar da saúde a quem quisesse meter a mão na massa sem o consentimento do padeiro. E ele era muito cioso de que só ele é que podia fazer isso, já que fazia parte do seu manual de procedimentos.
E ai de quem não tivesse na devida conta o comprimento da pá, que ia ao interior do forno e voltava. Sujeitava-se a ver o padeiro de pá em riste ou, pior ainda, se insistisse em querer ver o padeiro das avessas.
É por essas e por outras que eu cheguei a ter aspirações a ser padeiro e a manobrar a pá comprida, como se de uma espada de brincar se tratasse. Só que eu imaginava aquela brincadeira muito a sério, principalmente, quando pensava naqueles de que não gostava.
Depois as coisas ainda se complicaram mais, quando ouvi falar daquela padeira que resolveu correr uns tantos franceses à pazada e, se calhar, isso criou em mim aquele desejo anormal de despachar para dentro do forno, alguns portugueses mais chatos que os franceses, mesmo sem fogueira lá dentro.
No entanto, eu achava que, com a pá em acção, conseguia que eles se mantivessem lá, por muito tempo, ainda que tivesse de lhes mandar uns pães lá para dentro, para os manter quietos e calados.
Mas, repito, isso era no tempo em que havia padeiros e pás de padeiro. Hoje já não há nada disso. Mas continua a haver chatos iguaizinhos aos franceses. Esta coisa da globalização, também chegou ao pão e aos padeiros. Já ninguém faz farinha com ninguém e já toda a gente pode meter as mãos na massa, sem receio de levar com a pá.
E, assim sendo, lá se foi o meu sonho de ser padeiro.