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afonsonunes

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08 Jul, 2009

Sobremesas

 

A sobremesa do pessoal das classes média e baixa, actualmente, consiste em levantar os olhos da mesa onde acabou de se enganar o estômago com o tradicional pratinho de sopa, e concentrá-los, os olhos, no ecrã da televisão, que também serve para enganar o dito, com os ditos que nos oferecem da dita.
É por isso que também eu sou contemplado com essas sobremesas que, por sinal, já me têm causado alguns destemperos que chegam à raiz dos cabelos. Dependendo de quem me serve, lá me convencem a aceitar fruta ou doce, pois sou muito receptivo aos argumentos do porta-voz do menu televisivo.
Confesso que tenho uma certa tendência para as guloseimas, principalmente, aquelas que têm nomes mais animalescos, por fazerem aquele contraste que me fascina, que vai do doce ao azedo selvagem, numa simbiose de paladar e excitação. Devo ter uma parvoíce qualquer debaixo da língua, que me faz degenerar para ali.
Por exemplo, a última sobremesa que me encheu as medidas foi uma taça, grande, de lágrimas de crocodilo. Serviu-ma aquele rapazote baixo e gordo, que deve comer sobremesas até dizer basta. A maneira como ele me induziu a aceitar aquelas lágrimas de crocodilo, até me levou a pensar nas lágrimas que ele choraria se eu não aceitasse a sua sugestão.
Sob a pressão de tão forte vontade de me convencer, ainda lhe perguntei se ele não teria uma baba de papagaio pronta a sair, pois eu prefiro sempre o artigo que estou a ver no momento e, sinceramente, não via nenhum crocodilo por perto, naquele instante. Até porque o meu olhar não se desviava do homem gordo que me parecia babar-se mesmo.
Perante a insistência nas lágrimas de crocodilo, que eu estava quase a ver cair-lhe dos olhos, já meio alaranjados, e a falta de resposta à baba de papagaio, voltei a interrogá-lo sobre se não teria ao menos uma baba de camelo que, essa sim, já não era novidade para mim.
Mas, qual baba de papagaio ou baba de camelo, o homem apenas conhecia as lágrimas de crocodilo porque, dizia ele, eu não estou aqui a vender os meus produtos, que são apenas de consumo interno, enquanto as lágrimas de crocodilo são o meu produto de importação, de marca branca, aqui para nós, de contrabando, mas que é garantido por mim, quanto à qualidade. Palavra de crocodilo, acrescentou com muita verdade e sinceridade.
Ainda lhe lembrei que por cá não havia crocodilos mas, num gesto de boa vontade, sugeri-lhe que havia uma sobremesa excelente, que podia resolver-lhe o problema de convencer a clientela, sem a necessidade de andar por aí a derramar lágrimas de crocodilo, vindas sabe-se lá de onde.
O homem hesitou, como crocodilo quase cego de sono. Oh homem, acorde, quase lhe gritei. Se quer vender sobremesas aos montes, volte-se para as barrigas de freira. São dos tempos dos conventos e são feitas lá em casa.
Afinal, quem acordou fui eu. A televisão já nem sequer estava ligada e a minha sobremesa já tinha acabado há muito tempo.