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afonsonunes

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Sinceramente confesso que estou a ficar muito preocupado comigo próprio, porque cada vez me convenço mais que estou a ouvir coisas que ninguém disse, nem sei se coisas que alguma vez se possa imaginar que pudesse terem existido.
Isto até é capaz de ser grave, penso mesmo que posso estar à beira de alguma doença do foro ‘mentirológico’, semelhante em tudo a alguns pacientes que ainda hoje julgam que não têm doença nenhuma.
Já ouvi dizer por aí, umas cento e cinquenta mil vezes, que a crise está aí e está para ficar. Depois, já ouvi outras tantas vezes, que a nossa crise não tem nada a ver com a dos outros. Por mim, já pensei cento e cinquenta mil vezes que isso é verdade. A minha crise não tem nada a ver com a deles, nem a deles com a minha.
Todos os dias oiço falar neste número assustador de cento e cinquenta mil. Não sei de onde é que vem, mas suponho que é o número de mentiras que os políticos todos juntos já disseram nos últimos quatro anos.
Se dividirmos os cento e cinquenta mil, vá lá, por uns milhares de políticos no activo, até nem são muitas mentiras para cada um. Agora o que não se pode é cair no engano de querer atribuir as cento e cinquenta mil mentiras apenas a uma ou duas dúzias deles.
Em dois dedos de conversa pode falar-se de cento e cinquenta mil asneiras por dia, no que diz respeito ao país e aos portugueses. Se pensarmos que há uns milhares de políticos que dão dois dedos de conversa a muita gente por dia, é fácil deduzir que até nem são muitas asneiras por cada um, ao contrário do que muita gente pensa, que as asneiras são exclusivas de uma ou duas dúzias de políticos.
Admitindo que houve para aí cento e cinquenta mil portugueses a ficar espantados com os dois dedos mais famosos do país e do mundo, temos de concluir que o dono desses dois dedos, fez mais pelo bom nome do país, em termos de linguagem gestual, que os cento e cinquenta mil que só sabem ficar de boca aberta, quando alguém faz alguma coisa que se veja lá fora.
Não sei porquê, mas este número de cento e cinquenta mil, cheira-me a qualquer coisa que já foi dita mais do que esse número de vezes. Mais, parece-me até que esses que dizem essa coisa há quatro anos, se já tivessem aprendido a ler e a ouvir como deve ser, já teriam poupado a largada de cento e cinquenta mil demonstrações de ignorância em quatro anos.
É natural que eles tenham um objectivo bem definido. Mas, se assim é, não se compreende como não sabem o que são os objectivos dos outros. Como não se compreende que não saibam que os objectivos podem não ser alcançados, desde que haja factos imprevisíveis que impeçam o seu cumprimento. É dos livros. Há mais de cento e cinquenta mil dias.
Não quero acreditar que haja cento e cinquenta mil portugueses que não compreendam uma coisa tão simples.