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afonsonunes

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12 Jul, 2009

Unhas encravadas

 

Em boa verdade não sei o que isso é mas, como tenho bom ouvido, quando me convém, apercebi-me de umas descrições aflitivas de sofrimento, de quem já passou as passinhas do Algarve com esse flagelo de lhe apetecer andar descalço, por não suportar a pressão do sapato sobre a tal unha em situação irregular.
Situações irregulares é o que mais encontramos por aí e, no entanto, até já somos capazes de andar com certas pedras no sapato, porque não conseguimos deitá-las fora, ainda que nos descalcemos vezes sem conta. E, bem sabemos como elas são tão irregulares, a ponto de nos morderem da ponta dos dedos até ao fim dos calcanhares.
É um facto que há pessoas que deixam encravar as unhas, mesmo sabendo que há pedras no sapato que já bastavam de incómodo. Também é um facto que há pessoas que se transformaram em autênticas unhas encravadas, nos pés e nas mãos das corporações onde se meteram, e por lá se mantêm, porque ninguém é capaz de acabar com o ‘desencravanço’.
Quando me ponho a pensar em partidos políticos logo me vêm à lembrança as unhas encravadas, apesar de nunca ter tido essas dores, como já referi. Mas dói-me a alma por ouvir tanta baboseira sobre as virtudes da divergência entre elementos importantes do mesmo partido.
Como é fácil de comprovar, essas virtudes só são realçadas por quem está por cima. Quem está por baixo, não vai nessa conversa, porque nada o demove de querer correr com quem pretende substituir, estando-se marimbando para a regra da democracia, que obriga à lei do voto e da eleição.
Não o conseguindo, transforma-se numa autêntica unha encravada que, ‘partindo’ o partido, provoca dores de cabeça aos responsáveis pelo seu funcionamento. Sim, porque a unha não se desencrava por si só, nem há um meio indolor de a desencravar e, muito menos, de a arrancar à má fila.
Mais dolorosa se torna, quando essa unha encravada, se encontra infectada entre carne de dois partidos, fazendo queixas e ameaças a um, enquanto distribui sorrisos e abraços a outro. Pergunto a mim mesmo se isto terá alguma coisa a ver com a tal saudável convivência democrática, ou a desejável divergência de opiniões.
Para mim uma simples unha encravada, pode ser uma simples maleita que se cura com higiene e desinfectante, após troca de impressões com o médico assistente ou, nos casos mais graves, obrigará à tomada de anti-bióticos e, se necessário, à cirurgia para cura ou remoção da unha incurável.
Também haveria o caminho do transplante da unha encravada para a mão ou o pé mais compatível e menos susceptível de rejeição, mas essa já seria uma opção que caberia à própria unha encravada que, normalmente, por motivos exclusivamente economicistas, não admite sequer encarar.
Depois, falando de outras unhas mais complicadas e mais volumosos, vai-se dando uma no cravo, outra na ferradura, que é como quem diz, vai-se dividindo hoje e fazendo de conta que se quer unir amanhã, para que o marfim continue a correr e a rejeição de ambos os lados não estrague a futura operação. Que nunca terá nada a ver com cirurgia.
Se alguém está a pensar apenas numa unha encravada, bem pode alargar o pensamento, porque não é difícil descobrir outras, por entre as brumas dos dedos dos pés e das mãos de quem passa a vida a encravar, pensando que é desencrava.