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afonsonunes

afonsonunes

16 Jul, 2009

Quero fazer ondas

 

As ondas que mais aprecio são as que vogam pelo meu pensamento num vai vem que tão depressa me enche de satisfação, quando o seu movimento se traduz em esperança, como me deixa altamente frustrado, se não descubro saída para essas ondas, que rebentarão contra a parede da minha mente, que fica tão dura como qualquer outra parede.
Pessoalmente, penso que as ondas, mesmo quando rebentam, nunca se extinguem, dando lugar a outras que nascem em sua substituição. Para mim, as ondas são sempre as mesmas, que avançam e recuam, que lutam contra tudo o que as impede de se expandirem, tanto na planura da mente, como nas areias serenas de qualquer praia.
As ondas do mar revoltam-se contra as altas falésias que lhes cortam a vontade de ir mais além, mas não lhes cortam a bravura da sua revolta, nem as impede de mostrarem a sua raiva, expressa na espuma que espalham em redor das rochas que as martirizam.
Há muitas pessoas que não gostam de fazer ondas, talvez porque se impressionem com a inutilidade da luta das ondas do mar, eternamente condenadas a bater em vão, sempre nos mesmos obstáculos. Essas pessoas também não acreditam no sucesso do seu bater contra tudo e todos os que lhes roubam as forças para continuar lutas aparentemente infindas e inúteis.
Quem não gosta de fazer ondas, esquece que, como diz a sabedoria popular, a água tanto bate até que fura. E, como se sabe, as ondas do mar são água, cheia de força indomável, demonstrando que sempre fará ondas, que nunca vai dizer que não gosta de fazer ondas.
Ora, tal como o mar, a mente humana é imensa, é profunda, e é tão indomável como ele, quando se arma de igual força e independência, quando levanta o seu rumor permanente, que abafa tudo o que lhe queiram dizer no sentido de a levar a desistir de espalhar as suas ondas no ar, até que alguém as capte e ajude na sua difusão.  
É por isso que eu não desisto de fazer ondas, nem que seja apenas para colocar ao lado de outras ondas que avançam, de outras ondas que recuam para ganhar outra dimensão, quase sempre mais avassaladora, e de certas ondas que parecem morrer na praia, onde se transformam em espuma que voa como sonho enganador.
Bem podem as ondas rebentar contra as rochas inertes, estender-se suavemente na praia para delícia dos veraneantes, ou galgar as falésias aparentemente intransponíveis, que o homem e a mulher saberão criar as suas ondas de optimismo ou de pessimismo, para imitar o mar selvagem que tudo nos dá e tudo nos rouba.
Também a mente humana nos vai trazendo sucessivas ondas, algumas plenas de promessas de tempos vindouros mais felizes para tanta gente que só conheceu, e só conhece ainda hoje, as ondas da desventura e da tristeza. Também é a mente humana que descarrega diariamente as piores ondas de violência que atingem o mundo inteiro.
A única certeza que paira sobre as nossas cabeças, é que as ondas vão continuar a bater nas rochas e, como sempre, quem se lixa é o mexilhão.