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afonsonunes

afonsonunes

17 Jul, 2009

Corridos e fugidos

 

Este verbo correr entrou no glorioso campo da polémica ao ganhar duas novas sapatilhas, devido a estudos profundos das suas origens remotas. Até aqui só conhecíamos as corridas onde, por sinal, até temos registado progressos muito interessantes, em provas que sempre nos corriam muito mal.
Porque sempre há gente que tem um jeito especial para umas piadinhas brincalhonas, já me chegou aos ouvidos que nós, os portugueses, temos uma propensão admirável para dar à sola. Se eu estiver a interpretar bem esta especialidade, também eu estarei incluído no número de atletas que gostam de correr, no sentido de fugir de algo ou de alguém.
No entanto, ainda não ouvi dizer que somos, ou sou, fugido, tal como já tenho ouvido dizer que há quem seja corrido. Começo a desconfiar que ser corrido e ser fugido, não será bem a mesma coisa, aguardando pois as últimas explicações dos novos intérpretes dos tais estudos profundos que começam agora a ser conhecidos.
Esses estudos surgiram precisamente no centro do país, país tão profundo como os estudos, que devem ter concluído que o touro não é corrido na arena, tal como ninguém é corrido do emprego, nem nenhum político será alguma vez corrido do lugar, vulgo tacho, que desempenha há mais ou menos tempo, com assiduidade e bom comportamento. Dizem eles.
Portanto, cá temos o corrido que não existe. Também não consta que o touro seja fugido, senão teríamos uma fugida de touros e não uma corrida dos ditos. Já me parece que tem alguma lógica dizer-se que há trabalhadores fugidos dos empregos, mesmo quando alguém os obriga a fugir. O que eu não conheço mesmo, é que haja políticos fugidos dos tachos.
Se acrescentarmos aos fugidos e aos corridos, umas pedradas lançadas no meio desta confusão gramatical, então a coisa complica-se ainda mais, porque há pedradas de muitas qualidades e feitios. Deixando de lado aquela pedrada que fica depois da dose, ou mesmo antes dela, temos a pedrada que é mesmo feita com pedras e, segundo estatísticas especializadas, por vezes resulta em cabeças partidas e outros revezes.
Porém, segundo os tais estudos profundos mais recentes, baseados em factos antiquíssimos, talvez do tempo de Viriato, a pedrada é uma manifestação de carinho, é a pedra de toque da amizade que necessita contacto, no caso, entre a pedra e a cabeça, tal como o beijo ou o abraço, que tão carinhosamente estamos habituados a distribuir. Que ninguém se admire se as manifestações amorosas mais íntimas passarem, de um momento para o outro, a ser celebradas à pedrada.
Agora imagine-se a reacção de gente mais medrosa ou desconfiada que, não aderindo a tais manifestações, passa a andar fugido à pedrada, o que determinará o seu isolamento social e, sobretudo, o seu isolamento sentimental ou, pior ainda, o seu isolamento conjugal.
Em contrapartida, surgirá em breve tamanha onda de meiguice e de amor, que mudará o mundo, tão carecido que está nessa matéria tão sensível, que os estudiosos já desesperavam por não encontrar solução que fizesse essa incrível mudança.
Afinal, era tão fácil. Bastou que toda a gente ficasse a saber que o remédio é, simplesmente, sermos todos corridos à pedrada. Haja inovação.