Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

18 Jul, 2009

As quatro gracinhas

 

Ia eu a chegar à beira do jardim principal da cidade e, eis senão quando, os meus olhos deparam com quatro escritos encavalitados cada um em sua estrutura metálica, muito próximas umas das outras, como se quisessem dizer-me que o espaço é a coisa mais importante, para quem ali as colocou.
Duas das frases estavam acompanhadas de fotografias, enquanto as outras duas apenas tinham palavras. Todas apresentavam logótipos bem conhecidos e era evidente que pretendiam comunicar com os transeuntes e também com os automobilistas que circulavam à beira delas.
O jardim irradiava frescura, mas as mensagens do alto das estacas que as suportavam, eram uma espécie de calor reflectido que nos aquecia a testa, mesmo que os olhos não se impressionassem com aquelas visões tão pretensiosas e ao mesmo tempo tão diferentes nos conteúdos.
Uma das mensagens anunciava que eles não andavam a brincar não sei já com quem. Logo pensei que não estamos em tempo de brincadeiras e, muito menos, se os brincalhões andarem a brincar com coisas sérias, como são aquelas que afligem os alvos das suas não intenções.
Depois, como é óbvio, quem diz que não brinca, pode já estar a brincar com alguém que não quer brincar com eles. Nisto de brincadeiras, é preciso ter tino na rugosa, senão lá se vai o divertimento por troca com as arrelias próprias de quem não tem, e parece não querer ter, o mínimo sentido humorístico.
Olho para a segunda mensagem de estaca e leio que quem ficou à porta, não pode ficar sem entrar. Curiosamente, lembrei-me que devia haver ali um problema de chave. Afinal, a chave, que também é a chave do problema, deve estar em algum lado, ou nas mãos de alguém que não deixa sair o cacau, nem deixa entrar quem o quer receber.
Este é um caso em que se pretende que a chave mude mãos. Mas, para que tal aconteça, é preciso que o prédio e a porta respectiva, mudem de dono, porque não é bonito querer mandar na casa dos outros, sem a comprar ou arrendar primeiro. Sobretudo, se não se tiver cheta suficiente para o negócio.
No terceiro par de estacas lá estava bem claro, e bem alto, que eles nunca subiam as pernas, talvez porque já tinham os braços em posição bastante incómoda. É muito difícil eles serem capazes de trabalhar, com tantas limitações permanentes nos braços e nas pernas. Mas, já percebi que eles também não querem nem precisam trabalhar. Alguém fará isso por eles.
Fica-me a dúvida, legítima, como é óbvio, se será mais difícil subir as pernas, ou baixar os braços. Estou em crer que eles não são capazes de fazer nenhuma delas, pois isso implicaria uma ginástica dos diabos. E isso, eles deixam para os outros.
Não podia deixar de olhar para a quarta obra estrutural de berma de jardim, com aquele chamamento, ou incitamento, para avançar Portugal. Deixa-me cá pensar um bocado, a ver se consigo lá chegar. Pronto, já estou na linha de partida. Será que é ele a dar o tiro que manda avançar?
Esperemos que o tiro saia para o ar, senão ainda temos para aí um tiro no pé. Se isso acontecer, é bem provável que não se possa avançar. E então lá voltaremos à eterna questão de, quem não for capaz de avançar tem, estrategicamente, de recuar. Também, não faz mal, já estamos habituados.
Pois, eu sei que só havia quatro. Mas também sei que falta lá uma. Essa, estava presa a uma árvore, com uma corrente, assente no chão, sem estacas. E, segundo me pareceu ler nas entrelinhas, dizia que os bancos só servem para ser assaltados.
Ali ao lado, os bancos do jardim, escangalhavam-se a rir.