Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

24 Jul, 2009

Gajos porreiros

 

Toda a gente sabe que os há, mas nem sempre conseguimos dar com eles à primeira ou, dificilmente os encontramos à mão de semear, quando temos mesmo necessidade que eles nos dêem uma ajudinha em momentos de especial carência, ou quando nos sobram argumentos para manter a boca calada.
Se os gajos beras proliferam na sociedade de oratória fácil e enganadora, é preciso que os gajos porreiros se manifestem para fazer uma espécie de compensação entre os bons e os maus, pois se apenas existissem uns, ou outros, a vida seria um suplício muito maior do que aquele com que nos vamos contentando assim.
Mais ou menos, lá vamos sabendo onde encontrar os beras e os porreiros, até porque, por predefinição, os nossos catálogos mentais já os denunciam à distância, sem que tenhamos sequer de clicar, para que eles surjam mesmo à frente dos nossos olhos. Quantas vezes, eles até são identificáveis através de simples cores, mais carregadas ou mais esbatidas.
Estou mesmo convencido que os daltónicos também distinguem perfeitamente os seus gajos porreiros, embora por critérios mais beras, normalmente baseados no tacto da ponta dos dedos, ao contacto com o vil metal, ou ao som do farfalhar da contagem dos tentadores rectângulos de papel.
Mas, porreirinhos mesmo, são os gajos que, de vez em quando, falam ao jeito aos beras, numa atitude de benemerência que raia a caridadezinha para com o desespero de almas abandonadas, colhendo aí o conforto moral, com o qual os seus compadres porreiros nem sempre conseguem saciar-lhes as ambições que, normalmente, acabam por transformar-se em necessidades.
Há lá coisa mais bonita que ir às hostes inimigas buscar um guerreiro disposto a arrasar as técnicas e as tácticas dos seus chefes militares, criticando as suas retaguardas, apontando erros defensivos e ofensivos do seu lado, fornecendo doses suplementares de ânimo ao adversário, enquanto baixa o moral dos seus próprios camaradas de armas.
Por cá, não faltam exemplos de gajos porreiros que prestam permanentes ajudas, diria mesmo inestimáveis favores, àqueles a quem, normalmente, faltam argumentos para atacar, ou para se defenderem dos ataques que vêm do lado contrário.
É sabido que a motivação tem muito que se lhe diga, em termos de a fazer chegar ao centro nevrálgico onde ela é mais eficaz, no momento em que dela mais se precisa. Melhor ainda se ela, a motivação, vier do centro nevrálgico do campo oposto, veiculada por ondas que lhe reforcem a vivacidade e o espírito encorajador da inesperada surpresa.
Independentemente de terem mais ou menos razão, os gajos porreiros serão sempre gajos beras para aqueles que os têm, ou tinham, do seu lado. Serão sempre gajos porreiros para aqueles que os detestavam, ou ainda detestam, dependendo do momento de não serem beras.      
Mas, particularmente porreiros ou beras, são todos aqueles que se aproveitam da oportunidade de se pavonearem, à custa do seu nacional porreirismo, ou da sua tradicional tendência para ser bera, com quem lhes beija a mão a toda a hora.
Eu, que até me considero um gajo porreiro, às vezes, nem precisava de ser bera, se satisfizesse um certo desejo de escarrapachar aqui uma data de nomes. Mas, estou certo que nem é preciso. O país conhece os seus gajos porreiros. E os beras também.