Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

afonsonunes

afonsonunes

26 Jul, 2009

Ninhada especial

 

Hoje as grandes ninhadas saem dos aviários à velocidade determinada pelas enchentes dos restaurantes da especialidade e das opções alimentares lá de casa, determinadas, mais pelo preço, que pelo gosto dos consumidores domésticos.
Ora, em vista de tão grandes necessidades consumistas, lá se foram as ninhadas de capoeira, onde não entravam os químicos da engorda da actualidade, nem os grandes produtores da marosca, que até não gostam nada da ASAE.
Mas há outros aviários, onde não se encontra uma única pena, que têm um período de gestação bem maior que os outros, e deles saem ninhadas humanas que se desenvolvem dentro de colossais incubadoras que, depois de ligadas, ninguém mais consegue parar o seu movimento silencioso. Até porque têm grandes patronos.
Silencioso mas gigante e de aspecto simpático, elegante e promissor de grandes farturas próprias e alheias, enfim, um mundo que, tal como prometido por essa ninhada de génios, só podia ser eterno, dada a cultura de seriedade e de verdade de que se revestia a sua auréola indesmentível.
Todas as ninhadas têm um período, mesmo as que percorrem o mundo inteiro em busca de mais poder e de mais dinheiro. Mesmo as que deleitaram o país durante as suas vigências. Mesmo as que pareceram dar a felicidade que os outros nunca sentiram. Mesmo as que pretendem fazer-se lembrar tentando abafar as seguintes.
Para além dessas ninhadas de pavões, surgem sempre associadas a elas, as ninhadas de patos e de frangos, que disfarçam com o seu abate, a fome que os pavões matam de forma mais nobre e requintada. Fome que os pavões, verdadeiramente, nunca chegam a sentir, porque o seu único trabalho é comer.
Porém, lá vem o dia em que um dos pavões tem uma escorregadela acidental, provocando um alarme geral em toda a ninhada. São velhos amigos, são grandes companheiros de longas jornadas, são os incansáveis urdidores dos ninhos que os fizeram felizes até ao dia do terramoto que fez tremer todo o seu poderio.
Impensável até há bem pouco tempo, toda esta agitação dentro de uma ninhada de pavões, que começam a tropeçar uns nos outros, na sua corrida precipitada, na ânsia de se safarem de sucessivos choques em cadeia, à medida que a chapa batida vai revelando novos focos de ferrugem interior.
Parece agora que a época dos ninhos se expirou e que as ninhadas vão ter de se dispersar mais, para que os patos e os frangos não olhem tanto para eles. Mas, como é bem sabido, os bandos são bem maiores que as ninhadas e, se há coisa que seja mesmo transparente, é a vontade de ver a limpidez da consciência das ninhadas.
Estou a lembrar-me de uma ninhada que fez grande furor nos fins do século vinte, e veio receber o diagnóstico, ainda provisório, de um AVC, já nos alvores do século vinte e um.      
Bem podem os membros de quaisquer ninhadas, ou os seus acólitos, andar à procura de nódoas na roupa dos vizinhos. Mas, se insistirem em ocultar ou ignorar as suas, mesmo que sejam do tamanho das suas contas bancárias, já nada será como dantes. Mesmo que ainda tenham, e têm, do seu lado, os maiores empatas do país.
Como é fácil de concluir, tudo da mesma ninhada.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.